6 de out de 2008

:: Crisálida ::

Permanecia inerte, sob pó e papelão.

Seu endereço, aquela rua onde todos passam; mas, ainda assim, ninguém o vê. Afinal, há aqueles que crêem pagar por esse direito, o de não vê-lo, quando deixam o troco do croissant no copo de papel perto da modesta placa que pede bênçãos divinas sobre tais almas bondosas.

Somente ele, por enquanto, conhece a ironia daquela frase.

Para os que passam, não parece haver alguém ali; tudo é parte do cenário urbano, como o são os pontos de ônibus, ou as marquises, ou os semáforos e as placas e as faixas de pedestres e lixeiras e cães que dormem uns sobre os outros em qualquer degrau que os afaste alguns centímetros do chão.

E não sabem, nem lhes importa saber, quem ele é, ou por onde andou, ou se já esteve com reis e ladrões, ou se viu sóis apagarem e reinos nascerem; não lhes importa conhecer o que carregam seus pensamentos, não lhes importa pensar que ninguém nasce naquela condição ou ainda quais foram aquelas que o levaram até ali. Não lhes importa conhecer sua aparência, e é como deve ser, até que todas as perguntas já estejam respondidas ou que a ousadia para fazê-las não encontre mais espaço.

"Breve" - pensa - "breve."
E, sozinho, permite-se sorrir em silêncio.

Então esconde-se, protege-se nas caixas e no plástico, foge do frio da noite e da indiferença do mundo. Ouve os sons dos carros, dos passos que se apressam quando próximos a si, da música que toca, incansável, em algum rádio em alguma janela por ali.

E dorme, esquecendo-se dos rótulos que lhe dão, das certezas infundadas que têm a seu respeito e de todos os preconceitos que o cercam.

Dorme, sabendo que não é aquilo que aparenta; e que, a seu tempo, enfim se mostrará.

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