13 de out de 2008

:: Parágrafo ::

Ah, sim, claro que penso em toda essa beleza que é dos outros; mas que venha a mim como vier, se vier, e como quiser, se quiser, pois já não tenho forças em mim para exigir que venha ou mesmo pedir, humildemente, que o faça; digo então que já tanto faz ou tanto fez ou ainda que me importa pouco o que virá e o que trará consigo; basta, assim, a presença, mesmo que anônima e um tanto inerte, mesmo que incoerente ou repetitiva, mesmo que seja esse mais do mesmo que no final não é nada e menos ainda alguma coisa que mova em mim um pensamento ou sentimento que faça sair dos meus lábios um resquício e intuição que seja, para que no fim haja o êxtase ou o gôzo ou qualquer tipo de sentimento de satisfação que não este, completo em si mesmo, absoluto, inequívoco e irrevogável, talvez arrogante, talvez a certeza impenetrável e causticante que encerra em si mesma toda essa miríade de dores e amores e devaneios, de pretensões infundadas e de sonhos inatingíveis, de auroras escondidas e de crepúsculos afogados nas águas dessa chuva cristalina ininterrupta, gelada como a lembrança que guardo de você, agora já pálida e distante, constante, oculta pelas memórias de quando se falava tanto, de onde falávamos tanto, onde éramos tantos e todos e toda a vida ainda tínhamos pela frente até que chegamos a este agora teimoso e insistente, que recusa-se a admitir o próprio fim e assim permitir, benevolente, a vinda e a chegada do fresco e do novo, do ar vespertino e bondoso, do bálsamo das novas páginas em branco e dos novos capítulos a escrever, que hora escrevo ou que ao menos me disponho a escrever, enquanto esta ciranda impetuosa não me rouba o direito de na minha loucura de sentidos reivindicar apenas este, legítimo, puro e pétreo, de simplesmente, comigo, ser.

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