24 de nov de 2008

:: Balada ::

Nas madrugadas de quinta, ela saía porta afora: ainda que chovesse, ou que estivesse frio, ou que não soubesse aonde ir. Saía porta afora, deixando para trás o que houvesse em casa, ou quem estivesse em casa, ou quem quer que ela fosse em quando estava casa.

Passava pelas portas entreabertas de um sem-número de bares, pelas esquinas perdidas de um sem-número de becos, pelos olhos curiosos de um sem-número de gatos, pelo movimento dos indigentes que se escondiam assustados, pelas janelas abertas que cortavam a escuridão da noite com a luz bruxuleante da tevê.

Entrava, enfim, em algum lugar, e ali se deixava estar por algumas horas; entre as maquiagens e músicas, entre os drinks e a fumaça de cigarro, entre os risos perdidos e as roupas impecáveis. Ficava ali madrugada adentro, esperando acontecer o que quer que fosse acontecer, e o queria logo: a sexta-feira aproximava-se, e sonhava acordar para um dia diferente de todos os outros dias para os quais costumava acordar.

Por isso, nas madrugadas de quinta, ela saía porta afora.

E com a manhã despontando por detrás dos arranha-céus, entrava em casa novamente, encerrando-se na penumbra com a porta atrás de si.

•••

19 de nov de 2008

:: Alvorada ::

Escrevo enquanto você ainda dorme a sono solto, enquanto não vê o dia que, logo, será o seu dia, e ainda não vê as pessoas com quem vai conversar, interagir, almoçar, negociar, ou rever uma ou outra posição a respeito de assuntos que mal lhe dizem respeito.

Escrevo enquanto a manhã ainda oferece as primeiras das suas horas, tendo por companhia a xícara de chá e a fumaça que, timidamente, desprende-se no ar. Escrevo enquanto, da rua, ainda se fazem ouvir alguns daqueles sons tímidos, que só aparecem quando não há outros pedindo atenção: o da garrafa que caiu de algum lugar, um carro solitário passando apressado ou a porta de metal da padaria sendo levantada para receber seus primeiros clientes - ou ainda, para servir um café fresco àqueles que nem ao menos voltaram para casa.

Escrevo porque, talvez, o dia passe rápido demais, e talvez passemos nós por ele atarefados demais, e assim talvez esqueçamos de falar coisas sem importância, talvez esqueçamos de rir por bobagens e de não levar tudo tão a sério. Escrevo porque, talvez, estejamos cansados demais para perguntar um ao outro como aconteceram as coisas hoje, quando hoje já for quase ontem.

E porque, talvez, quando percebermos isso, já não possamos fazer muito mais.

Escrevo agora, nesta minha urgência insone, na esperança de nos alcançarmos antes que haja dias demais entre nós.

Então, bom dia.

•••

10 de nov de 2008

:: Sinfonietta ::

Os dois olhavam-se em silêncio, nas primeiras horas da manhã: haviam dormido apenas um pouco e acordaram juntos, com a leve brisa que atravessava a janela, que lutava contra a cortina de seda, que entrava sorrateira e acariciava os corpos exaustos sobre a cama, alheios a todos, alheios ao mundo, suficientes em si mesmos.

Hoje é o dia em que as palavras servem de muito pouco: afinal, tudo foi dito durante a noite, sem qualquer uma delas. E foi mostrado, foi sentido, foi dividido. Foram os olhares e a respiração e as mãos e o suor; foram os dentes e o calor e a pele. Foi a luz suave e o leve perfume e as velas que, agora, igualmente exauridas, ofertam sua delicada fumaça branca ao quarto.

Falar os traria de volta à realidade, de volta ao dia que precisa ser vivido e aos compromissos que exigem atenção e às pessoas que, nesse momento, eles permitem-se nem ao menos lembrar que existem.

E, então, permaneciam ali, onde nada mais havia além das paredes que os protegiam.

•••

3 de nov de 2008

:: Rien? ::

Sempre que cantava, dava um pouco de si para todos. E a eles pouco importava se, assim, a consumissem, desde que recebessem, cada um, sua porção, merecedores que eram graças aos seus ingressos empunhados. Aquela noite, já sabiam, seria de poucos bocados: a estrela, cansada, estava opaca. Mas em lugar de lhe concederem repouso, punham-se às primeiras fileiras, esfomeados, como filhotes com o bico aberto ansiosos em seu ninho, à espera de tudo aquilo que lhe sairia da garganta: música e êxtase.

Então, terminado o espetáculo, enquanto o que restava da artista voltava ao camarim, eles saíam em debandada. E permitiam-se dizer que ouviram uma apresentação razoável, e que ela, a cantora, já vivera dias melhores e que era visível sua decadência. Assim caminhavam rumo às suas margueritas e pizzas napolitanas nas cantinas iluminadas da noite.

À estrela, sozinha na sala atrás do palco já vazio, gim seco: amanhã, novamente.

•••