24 de nov de 2008

:: Balada ::

Nas madrugadas de quinta, ela saía porta afora: ainda que chovesse, ou que estivesse frio, ou que não soubesse aonde ir. Saía porta afora, deixando para trás o que houvesse em casa, ou quem estivesse em casa, ou quem quer que ela fosse em quando estava casa.

Passava pelas portas entreabertas de um sem-número de bares, pelas esquinas perdidas de um sem-número de becos, pelos olhos curiosos de um sem-número de gatos, pelo movimento dos indigentes que se escondiam assustados, pelas janelas abertas que cortavam a escuridão da noite com a luz bruxuleante da tevê.

Entrava, enfim, em algum lugar, e ali se deixava estar por algumas horas; entre as maquiagens e músicas, entre os drinks e a fumaça de cigarro, entre os risos perdidos e as roupas impecáveis. Ficava ali madrugada adentro, esperando acontecer o que quer que fosse acontecer, e o queria logo: a sexta-feira aproximava-se, e sonhava acordar para um dia diferente de todos os outros dias para os quais costumava acordar.

Por isso, nas madrugadas de quinta, ela saía porta afora.

E com a manhã despontando por detrás dos arranha-céus, entrava em casa novamente, encerrando-se na penumbra com a porta atrás de si.

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