3 de nov de 2008

:: Rien? ::

Sempre que cantava, dava um pouco de si para todos. E a eles pouco importava se, assim, a consumissem, desde que recebessem, cada um, sua porção, merecedores que eram graças aos seus ingressos empunhados. Aquela noite, já sabiam, seria de poucos bocados: a estrela, cansada, estava opaca. Mas em lugar de lhe concederem repouso, punham-se às primeiras fileiras, esfomeados, como filhotes com o bico aberto ansiosos em seu ninho, à espera de tudo aquilo que lhe sairia da garganta: música e êxtase.

Então, terminado o espetáculo, enquanto o que restava da artista voltava ao camarim, eles saíam em debandada. E permitiam-se dizer que ouviram uma apresentação razoável, e que ela, a cantora, já vivera dias melhores e que era visível sua decadência. Assim caminhavam rumo às suas margueritas e pizzas napolitanas nas cantinas iluminadas da noite.

À estrela, sozinha na sala atrás do palco já vazio, gim seco: amanhã, novamente.

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