29 de dez de 2008

:: Sirocco ::


Foram tantos os dias que passou por entre aquelas paredes que custava a compreender o mundo do lado de fora. Demorava a perceber o sol, e a entender o calor que fazia brotar as gotas de suor, o vento fresco que soprava vindo da praia e que trazia consigo o cheiro do mar - mas ele lembrava do cheiro do mar.

Por quanto tempo esteve ausente?

Perto dali ficava a casa onde costumava passar as tardes, a primeira da vizinhança a ter piscina. E lembra como os garotos contavam os minutos até seus mergulhos na água doce, enquanto pais aliviados não precisavam se preocupar com as ondas que estouravam na praia.

A casa, agora, não estava mais lá. Dera lugar a prédios e pressa, a fast food e a ruídos que ele não compreendia. Havia outdoors e ônibus e bancas de jornais com notícias espantosas, havia pessoas que não se olhavam, carregando celulares e pastas e papéis, com sorrisos pasteurizados e que viam no sol que se punha apenas o alerta para fecharem logo seus negócios.

Por quanto tempo esteve ausente?

Seguiu devagar rumo ao mar, agora cercado por calçadões e bancos de concreto, carregando consigo a memória de outros verões. E enquanto ouvia as ondas, olhos cerrados, procurava em si mesmo o próprio lugar naquele tempo, junto ao único lugar que ainda parecia fazer sentido.


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22 de dez de 2008

:: Bouquet Garni ::

Da porta de casa, olhava pra fora: via as janelas fechadas para o frio e a névoa que ainda estendia-se pelo parque, convidando para mais alguns minutos de preguiça todos aqueles que podiam dar-se ao luxo de inventar uma desculpa para chegar mais tarde ao escritório.

Com a porta ainda aberta – não havia qualquer motivo para fechá-la - voltou ao fogão; o apito da chaleira avisara há muito que a água fervia: ainda que tantos anos já lhe tivessem educado o paladar para o chá, deixara há tempos de se importar com a diferença entre a água que fervera ou a que não. Roupão fechado, sentado no banquinho da cozinha forrada de azulejos, o rádio insistindo com Casta Diva – ele poderia jurar ser o único que ainda ouvia aquela estação, o único para quem Maria Callas ainda cantava.

Desperto da primeira soneca do dia, vem o gato esfregar-se em sua perna e arrancar-lhe um sorriso.

- Sardinhas... – confidenciou ao ver o amigo que, sentado sobre o frio piso azulado, parecia entender a magia daquela palavra. – Nada como sardinhas para o café-da-manhã, hein? – completou, abrindo a lata para aquele intruso que seis anos antes irrompera pela janela e que, desde então, permitira ao velho homem continuar na casa e dividi-la consigo.

Era hora de ver a casa, examinar seus detalhes, colocá-la tão saudável quanto ele próprio se sentia, em seus oitenta e tantos anos.

- Hoje ela vem, há que estar tudo pronto. – continuou, tirando da geladeira tudo o que planejara.

Suas mãos não esqueceram o manejo dos utensílios, não havia tremor que lhe fizesse errar as medidas de qualquer tempero. Logo, a casa inteira estava tomada pelos perfumes que, durante décadas, acompanharam os passageiros mais exigentes do Signora del Mare em suas aventuras oceanos afora.

Imerso em memórias, recordava os nomes da moda e quantos deles foram alimentados por suas mãos; recordava como tantos deles sequer são lembrados: passaram, assim como as ondas que por tanto tempo embalaram os sonhos à bordo daquela exclusiva embarcação.

Tempo que, como agora, escapava antes que dele se pudesse dar conta.

Mas antes que um suspiro pudesse trazer nostalgia, um beijo em seu rosto o desperta num leve susto: ela chegara, em silêncio, e ele poderia jurar ver toda a cozinha iluminar-se.

- Bom dia, meu pai.

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15 de dez de 2008

:: Tempo ::

Ainda não.

Precisava, antes, ouvir de novo algumas músicas e rever fotos antigas; precisava enviar umas delas aos amigos agora distantes, enfim ciente de onde estavam. Precisava, talvez, telefonar a alguns deles, mesmo sem ter idéia do que lhes dizer, apenas para sabê-los surpresos do outro lado da linha, e sabê-los comentando entre si à mesa do jantar que ele tinha ligado, vejam só, depois de tanto tempo, e imaginar que talvez lembrassem de uma ou outra coisa que fizeram juntos em idos tempos, e que talvez rissem, e que talvez pensassem que poderia valer a pena rever algumas das pessoas que ficaram por aí, pela estrada, pela lembrança soterrada por outras coisas que nem sabem ao certo quais são.

Suava, apertava as mãos com tal força que marcava as palmas com as unhas.
Respirou fundo. Ainda não.

Ainda queria tentar alguns sabores, cozinhas que nunca arriscara provar por pensar que não havia motivo para fazê-lo, e que agora parecem conter todos os ingredientes que tornam a vida interessante e necessária, todos os condimentos que parecem compor um dia ideal, todos os aromas que podem temperar de felicidade e lucidez a brisa que corre despercebida pela manhã de uma quarta-feira qualquer.

Abriu o frasco, trêmulo, irrequieto, e engoliu, sem contar, mais uns tantos comprimidos. Pegou da água tépida e sorveu um gole apressado; limpou a boca com as costas da mão, enquanto respirava fundo, solene.

Então, ainda não.

Ainda havia algumas coisas que ele queria dizer a ela, e sentia-se pronto a fazê-lo: repensou as palavras uma centena de vezes, repensou a forma como as diria e as reações dela, todas as possíveis. Já tinha o coração pronto e os braços abertos, o sorriso preparado, e as lágrimas que impunham a própria presença.

Seria logo, ele sabia. Uma certeza explicável apenas por seu próprio momento.
E havia também, contra todas as probabilidades, serenidade e expectativa.

Breve, sim, mas não agora.
Ainda não.


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7 de dez de 2008

:: Interlúdio ::

E enquanto espero, talvez por você, coloco-me aqui, à margem do tempo, envolto em pó e em memória, imerso na neblina do desejo que não vê resposta.






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1 de dez de 2008

:: Clave ::

Acordou naquele dia quando já não queria falar com ninguém; há dias não se ouvia sua voz. Já não acessava msn, já não lia seus e-mails, e até o momento em que o desligou, já não atendia mais as chamadas no telefone.

Em casa, sobrara muito pouco: a geladeira vazia, como a despensa, e mais um tanto de coisas que ficariam ali até que chegasse o dia, se chegasse, em que novamente seriam usadas. As contas estavam pagas, as luzes apagadas, a cama arrumada. Sobre ela, a mochila, e nela, poucas roupas, a máquina fotográfica, algum dinheiro. Passaporte novo. Descompromisso.

E não mais, a partir de agora, aquelas pessoas, e aquelas coisas, e aqueles dias que insistem em passar sem trazer nada de novo. E não mais os carros, e os programas humorísticos com suas risadas enlatadas, e a comida congelada no microondas. E não mais as vozes que lhe chamavam de volta ao mundo real, como um coral cinza e dissonante, anônimo, inorgânico; e não mais a sinfonia de buzinas e de elevadores e de caixas registradoras e de esteiras mecânicas das academias.

Não havia o que dizer a ninguém. Ao menos, não agora.
Não sabia o que queria, e não importava: não estava ali.

Seguiu para o aeroporto, e de lá para algum lugar.
Até, talvez, um dia.

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