22 de dez de 2008

:: Bouquet Garni ::

Da porta de casa, olhava pra fora: via as janelas fechadas para o frio e a névoa que ainda estendia-se pelo parque, convidando para mais alguns minutos de preguiça todos aqueles que podiam dar-se ao luxo de inventar uma desculpa para chegar mais tarde ao escritório.

Com a porta ainda aberta – não havia qualquer motivo para fechá-la - voltou ao fogão; o apito da chaleira avisara há muito que a água fervia: ainda que tantos anos já lhe tivessem educado o paladar para o chá, deixara há tempos de se importar com a diferença entre a água que fervera ou a que não. Roupão fechado, sentado no banquinho da cozinha forrada de azulejos, o rádio insistindo com Casta Diva – ele poderia jurar ser o único que ainda ouvia aquela estação, o único para quem Maria Callas ainda cantava.

Desperto da primeira soneca do dia, vem o gato esfregar-se em sua perna e arrancar-lhe um sorriso.

- Sardinhas... – confidenciou ao ver o amigo que, sentado sobre o frio piso azulado, parecia entender a magia daquela palavra. – Nada como sardinhas para o café-da-manhã, hein? – completou, abrindo a lata para aquele intruso que seis anos antes irrompera pela janela e que, desde então, permitira ao velho homem continuar na casa e dividi-la consigo.

Era hora de ver a casa, examinar seus detalhes, colocá-la tão saudável quanto ele próprio se sentia, em seus oitenta e tantos anos.

- Hoje ela vem, há que estar tudo pronto. – continuou, tirando da geladeira tudo o que planejara.

Suas mãos não esqueceram o manejo dos utensílios, não havia tremor que lhe fizesse errar as medidas de qualquer tempero. Logo, a casa inteira estava tomada pelos perfumes que, durante décadas, acompanharam os passageiros mais exigentes do Signora del Mare em suas aventuras oceanos afora.

Imerso em memórias, recordava os nomes da moda e quantos deles foram alimentados por suas mãos; recordava como tantos deles sequer são lembrados: passaram, assim como as ondas que por tanto tempo embalaram os sonhos à bordo daquela exclusiva embarcação.

Tempo que, como agora, escapava antes que dele se pudesse dar conta.

Mas antes que um suspiro pudesse trazer nostalgia, um beijo em seu rosto o desperta num leve susto: ela chegara, em silêncio, e ele poderia jurar ver toda a cozinha iluminar-se.

- Bom dia, meu pai.

•••


Nenhum comentário: