1 de dez de 2008

:: Clave ::

Acordou naquele dia quando já não queria falar com ninguém; há dias não se ouvia sua voz. Já não acessava msn, já não lia seus e-mails, e até o momento em que o desligou, já não atendia mais as chamadas no telefone.

Em casa, sobrara muito pouco: a geladeira vazia, como a despensa, e mais um tanto de coisas que ficariam ali até que chegasse o dia, se chegasse, em que novamente seriam usadas. As contas estavam pagas, as luzes apagadas, a cama arrumada. Sobre ela, a mochila, e nela, poucas roupas, a máquina fotográfica, algum dinheiro. Passaporte novo. Descompromisso.

E não mais, a partir de agora, aquelas pessoas, e aquelas coisas, e aqueles dias que insistem em passar sem trazer nada de novo. E não mais os carros, e os programas humorísticos com suas risadas enlatadas, e a comida congelada no microondas. E não mais as vozes que lhe chamavam de volta ao mundo real, como um coral cinza e dissonante, anônimo, inorgânico; e não mais a sinfonia de buzinas e de elevadores e de caixas registradoras e de esteiras mecânicas das academias.

Não havia o que dizer a ninguém. Ao menos, não agora.
Não sabia o que queria, e não importava: não estava ali.

Seguiu para o aeroporto, e de lá para algum lugar.
Até, talvez, um dia.

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