29 de dez de 2008

:: Sirocco ::


Foram tantos os dias que passou por entre aquelas paredes que custava a compreender o mundo do lado de fora. Demorava a perceber o sol, e a entender o calor que fazia brotar as gotas de suor, o vento fresco que soprava vindo da praia e que trazia consigo o cheiro do mar - mas ele lembrava do cheiro do mar.

Por quanto tempo esteve ausente?

Perto dali ficava a casa onde costumava passar as tardes, a primeira da vizinhança a ter piscina. E lembra como os garotos contavam os minutos até seus mergulhos na água doce, enquanto pais aliviados não precisavam se preocupar com as ondas que estouravam na praia.

A casa, agora, não estava mais lá. Dera lugar a prédios e pressa, a fast food e a ruídos que ele não compreendia. Havia outdoors e ônibus e bancas de jornais com notícias espantosas, havia pessoas que não se olhavam, carregando celulares e pastas e papéis, com sorrisos pasteurizados e que viam no sol que se punha apenas o alerta para fecharem logo seus negócios.

Por quanto tempo esteve ausente?

Seguiu devagar rumo ao mar, agora cercado por calçadões e bancos de concreto, carregando consigo a memória de outros verões. E enquanto ouvia as ondas, olhos cerrados, procurava em si mesmo o próprio lugar naquele tempo, junto ao único lugar que ainda parecia fazer sentido.


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