15 de dez de 2008

:: Tempo ::

Ainda não.

Precisava, antes, ouvir de novo algumas músicas e rever fotos antigas; precisava enviar umas delas aos amigos agora distantes, enfim ciente de onde estavam. Precisava, talvez, telefonar a alguns deles, mesmo sem ter idéia do que lhes dizer, apenas para sabê-los surpresos do outro lado da linha, e sabê-los comentando entre si à mesa do jantar que ele tinha ligado, vejam só, depois de tanto tempo, e imaginar que talvez lembrassem de uma ou outra coisa que fizeram juntos em idos tempos, e que talvez rissem, e que talvez pensassem que poderia valer a pena rever algumas das pessoas que ficaram por aí, pela estrada, pela lembrança soterrada por outras coisas que nem sabem ao certo quais são.

Suava, apertava as mãos com tal força que marcava as palmas com as unhas.
Respirou fundo. Ainda não.

Ainda queria tentar alguns sabores, cozinhas que nunca arriscara provar por pensar que não havia motivo para fazê-lo, e que agora parecem conter todos os ingredientes que tornam a vida interessante e necessária, todos os condimentos que parecem compor um dia ideal, todos os aromas que podem temperar de felicidade e lucidez a brisa que corre despercebida pela manhã de uma quarta-feira qualquer.

Abriu o frasco, trêmulo, irrequieto, e engoliu, sem contar, mais uns tantos comprimidos. Pegou da água tépida e sorveu um gole apressado; limpou a boca com as costas da mão, enquanto respirava fundo, solene.

Então, ainda não.

Ainda havia algumas coisas que ele queria dizer a ela, e sentia-se pronto a fazê-lo: repensou as palavras uma centena de vezes, repensou a forma como as diria e as reações dela, todas as possíveis. Já tinha o coração pronto e os braços abertos, o sorriso preparado, e as lágrimas que impunham a própria presença.

Seria logo, ele sabia. Uma certeza explicável apenas por seu próprio momento.
E havia também, contra todas as probabilidades, serenidade e expectativa.

Breve, sim, mas não agora.
Ainda não.


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