12 de jan de 2009

:: Calíope ::

Eram tantas as coisas que tinha na cabeça que não conseguia colocá-las em ordem. Nem ao menos encontrava nomes para todas, mas sabia que estavam lá: tinham forma e cheiro e cor e personalidade, e apresentavam-se uma a uma diante dos seus olhos, como criatura diante do criador, esperando por seu batismo enquanto, sozinho, ele debatia-se em agonia.

Talvez fosse a história de um garoto que se fechara em um sótão até ser descoberto vivo anos depois, inexplicavelmente, por quem chegava para demolir a casa; talvez fosse mais um conto de dragões e feiticeiros em uma terra distante e fantástica, ou talvez fossem seres envolvidos em uma batalha perdida no tempo, enchendo os sonhos de uma menina até que ela completasse seus quinze anos. Mas talvez tudo isso já tenha sido escrito, estudado e catalogado, talvez sejam histórias já tão contadas que os nomes dos personagens estão gastos demais para que possam ser pronunciados novamente.

E todas as noites, sozinho em seu quarto, ele defrontava-se com a folha em branco, ameaçadora, e com o cursor sobre a tela que o acusava, incansável, de não dar à luz uma palavra sequer, uma sentença sequer, um único pensamento ou uma única idéia.

Havia os livros expostos na prateleira, seus velhos amigos da juventude, que levaram-no a pescar com o velho Santiago no mar inclemente, que levaram-no até a casa dos Buendía, que ofereceram carona no Durango 95 horrorshow, que levaram-no para uns tragos em Nova Iorque com Holden Caulfield e à prisão mental de Winston Smith.

Todos olham-no agora, e perguntam para onde ele os levará.

Talvez seja preciso mais café, mais do cheiro da madrugada e dos sons perdidos da noite, mais do frio que insiste em esgueirar-se pela janela e mais da letra de Spanish Caravan.

Por agora, está desconfortável em sua própria companhia, à espera de algo que parece estar a uma distância sem fim, envolto em névoa e inquietude. Algo que fará disparar o coração, e cortar o fôlego, e arrebatar suas mãos e seus dedos em um frenesi imperturbável.

Mas agora, ainda, está sozinho em seu quarto.
E espera, madrugada adentro.

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