5 de jan de 2009

:: Essência ::

Ela chegava com as primeiras horas da manhã, enquanto um sol ainda preguiçoso pedia gentilmente ao orvalho que voltasse mais tarde. Abria a porta da cozinha com uma delicadeza capaz de manter o sono até do perdigueiro que, com seus dezessete anos, conquistara há tempos o privilégio de dormir na sala, aproveitando o calor da lareira até os últimos estalos da madeira.

Quando ela entrava, a casa ainda cheirava a frio, a fumaça e a sono.

Do pacote do supermercado, começava a tirar o que a inspiração lhe mandara comprar: pão, como sempre, ovos e leite, sem os quais ninguém começa bem o dia – insistia em dizer – além daquilo que parecia ter sido criado só para ela: condimentos e temperos com os quais enchia os dias de texturas e sabores.

Aos poucos, quando o perfume da cozinha alcançava o segundo andar, vinha a família. Desciam um a um e acomodavam-se à mesa, enquanto a leiteira ainda apitava sobre o fogão, enquanto o pão ainda estava quente o suficiente para que a manteiga sumisse quase por completo sobre o miolo.

Riam e sorriam.

Ela reconhecia a todos pelos passos, muito antes de vê-los, e eram muitos os bom dia que ouvia naquela casa. Na maioria das vezes, respondia apenas com um sorriso; não era boa com as palavras; ou ao menos se convencera disso.

Então, quando não sabia o que dizer, cozinhava. E naquilo que servia, fazia reconhecer seu humor, sua vontade, e quem era.

Na satisfação de quem saboreava, encontrava, cúmplice, a gratidão que buscava.

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