23 de fev de 2009

:: Coda ::

Vai passar, acredite.

Sim, ainda lhe roubará algum tempo. Ainda serão algumas noites em claro, ainda há umas tantas lágrimas a verter. Ainda há incompreensão a ser destilada e perguntas a fazer, ainda que, como resposta, nada possam alcançar além do silêncio.

Mas há de passar.

Por mais um pouco persistirá a lembrança das promessas não cumpridas, do olhar cúmplice, do perfume dos cabelos dela. Haverá a mentira pueril, bradando aos quatro ventos a impossibilidade de uma paixão semelhante, de um sentimento semelhante, ou de semelhante disposição para passar por tudo aquilo ainda mais outra vez.

Mas passará.

Você ainda pensará que toda a culpa foi sua, como se todo momento nefasto carregasse sua assinatura, como se o universo conspirasse apenas para lhe causar dor.

Mas por maior que seja a noite, ela chegará ao fim.
E mesmo que por entre lágrimas, você voltará a enxergar o sol.

Acredite.


...



16 de fev de 2009

:: Relicário ::

Por muito tempo procurou entre suas coisas, naquele armário fechado há mais tempo do que conseguia lembrar. Dali tirou alguns objetos, alguns cheiros e tantas lembranças, sobreviventes do tempo e da indiferença, marcos de uma época em que a vida era mais simples, quando os desejos eram mais simples, quando os sonhos não haviam, ainda, sido massacrados por uma realidade que seus amigos, exemplos de cidadãos responsáveis, faziam questão de mostrar-lhe a todo instante. “Crescemos”, diziam; “Já vivemos o que tínhamos de viver.”

Não ele. Ainda não.

Tentava encontrar, entre uma caixa e outra, o momento em que as coisas mudaram de importância, o momento em que as fronteiras antes invisíveis tornaram-se sólidas o suficiente para serem os limites daquela cela onde todos, passivamente, deixaram-se encarcerar; tentava encontrar o momento em que a cerveja por volta das seis tornara-se a derradeira possibilidade de algum alento, de alguma voz própria, transformando-se no único cenário para outros sonhos que, como já sabem, jamais verão a luz do dia.

Brindavam, de dentro dos seus ternos e da sua conformidade.

Pouco encontrava de si em tudo o que mexia. Àquela altura, diziam sua família e os amigos que meneavam a cabeça lá da salinha do café, ele já precisava estar estabelecido; uma carreira, um bom plano de saúde e uma ou duas aplicações financeiras, só para garantir. “O mundo vai estar sempre aí’, repetiam a si mesmos, enquanto assistiam a um documentário sobre Istambul.

Mas ele não vai estar sempre aí. E ele o quer agora.

Em frente àquele armário, dentre tantas das coisas que lhe vinham, ansiosas, às mãos, não encontrava o que queria. E, de fato, já não sabia o que era. Então fechou-o novamente, deixando as lembranças por empacotar.

Colocou a mochila nas costas e saiu, sem saber ainda para onde.


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9 de fev de 2009

:: Visto ::

Quando chegou, não havia ninguém à sua espera no aeroporto: todos ocupados demais trabalhando ou buscando os filhos aqui e ali, ou com gente em casa ou sem carro.

Tudo bem, pegaria um táxi.

As cores da cidade eram outras, ainda que tudo fosse o mesmo. Ele passava pela via expressa com o olhar perdido na janela, enquanto o motorista fazia as perguntas de praxe a respeito de onde vinha seu passageiro ou praguejava sobre os políticos de ocasião e, quando sobrava tempo, sobre a própria mulher, que não entendia por que é que ele ficava até tão tarde rodando por aí e que convencera a si mesma de que havia rabo-de-saia nessa história mal contada sobre trabalho e horas a cumprir.

Esperava que alguns amigos o visitassem à noite; afinal, mantivera o mesmo endereço: ainda que distante, e sabendo a casa vazia, sentia que era seu elo com o que deixara ali, com aqueles que deixara ali, quando tão de repente viu-se ausentar por dias que, quando menos percebeu, haviam transformado-se em meses e, logo, em anos.

Talvez viessem. Ainda que, agora, estivessem todos casados e conformados, ainda que tenha ouvido mais de uma vez que “os tempos agora são outros” e que era preciso, afinal, assentar o espírito e deixar a vida seguir seu curso.

Voltara para ver o quanto ainda havia dele ali.

Fechou a porta do carro agradecendo a corrida e caminhou lentamente, deixando-se deter, então, por alguns instantes, em frente ao prédio. Não havia rostos conhecidos entre aqueles que desviavam dele na calçada, e mesmo o ruído das crianças no colégio ao lado parecia distante, perdido no tempo.

Com um suspiro profundo e uma tentativa de sorriso esforçando-se por despontar em seu rosto, avançou.


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2 de fev de 2009

:: Flash ::

Sim, não vou mentir: já esperava encontrá-la ali. Sim, confesso: despertaram sentimentos antigos, ultrapassados; despertaram anseios que, esperançoso, julgava entregues ao passado e a um esquecimento passivo, silencioso, indolor.

E assim a vejo não como se mostra, como quer ser vista, mas como é: além da maquiagem e da pose, da beleza do longo vestido de noite, dos cumprimentos formais e dos sorrisos sem rosto.


Relembro-a, então, preguiçosa, dentro do meu velho moleton largo, surrado, sentada com as pernas junto ao corpo naquela mesa grande demais para a cozinha, enquanto a manhã, nossa cúmplice, hesitava em despontar.

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