16 de fev de 2009

:: Relicário ::

Por muito tempo procurou entre suas coisas, naquele armário fechado há mais tempo do que conseguia lembrar. Dali tirou alguns objetos, alguns cheiros e tantas lembranças, sobreviventes do tempo e da indiferença, marcos de uma época em que a vida era mais simples, quando os desejos eram mais simples, quando os sonhos não haviam, ainda, sido massacrados por uma realidade que seus amigos, exemplos de cidadãos responsáveis, faziam questão de mostrar-lhe a todo instante. “Crescemos”, diziam; “Já vivemos o que tínhamos de viver.”

Não ele. Ainda não.

Tentava encontrar, entre uma caixa e outra, o momento em que as coisas mudaram de importância, o momento em que as fronteiras antes invisíveis tornaram-se sólidas o suficiente para serem os limites daquela cela onde todos, passivamente, deixaram-se encarcerar; tentava encontrar o momento em que a cerveja por volta das seis tornara-se a derradeira possibilidade de algum alento, de alguma voz própria, transformando-se no único cenário para outros sonhos que, como já sabem, jamais verão a luz do dia.

Brindavam, de dentro dos seus ternos e da sua conformidade.

Pouco encontrava de si em tudo o que mexia. Àquela altura, diziam sua família e os amigos que meneavam a cabeça lá da salinha do café, ele já precisava estar estabelecido; uma carreira, um bom plano de saúde e uma ou duas aplicações financeiras, só para garantir. “O mundo vai estar sempre aí’, repetiam a si mesmos, enquanto assistiam a um documentário sobre Istambul.

Mas ele não vai estar sempre aí. E ele o quer agora.

Em frente àquele armário, dentre tantas das coisas que lhe vinham, ansiosas, às mãos, não encontrava o que queria. E, de fato, já não sabia o que era. Então fechou-o novamente, deixando as lembranças por empacotar.

Colocou a mochila nas costas e saiu, sem saber ainda para onde.


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