30 de mar de 2009

:: Anedonia ::

E estava ali, sem saber como havia chegado.

Era uma reunião qualquer, sobre novos mercados na Ásia e sobre a importância da implantação de um sistema de gestão de cotas e de núcleos empresariais auto-sustentáveis. Caiu em si quando lhe disseram alguma coisa e ele repetiu, em forma de pergunta, a última frase que ouvira: todos o acharam inteligentíssimo, enquanto ele próprio sentia-se uma fraude e procurava posição mais confortável na cadeira.

Agora era meio da tarde e ele comprava café descafeinado com leite sem lactose e adoçante, a caminho do hotel que lhe oferecia mais opções de lazer do que estaria disposto a experimentar se tivesse tempo; mas o que tem é suficiente apenas para uma troca de roupas e, talvez, uma rápida chuveirada: não poderia arriscar atrasar-se para o jantar, e o trânsito naquela cidade era de loucos.

Agora, meio da madrugada e era impossível dormir. Engoliu dois comprimidos e procurou o que ver na TV: apenas ofertas de jóias de qualidade duvidosa, vendidas a preço de duas por uma, e de crucifixos abençoados pelo próprio Papa em pessoa. Já lera alguma coisa do Novo Testamento impresso pelos Gideões que encontrara em seu criado-mudo, e se interessara em especial por uma passagem em João, que leria com mais calma depois.

Agora, um novo dia: café da manhã com ovos demais, bacon demais, manteiga demais e um suco de frutas claramente pouco à vontade sobre a mesa. O sol ofertava convites ao mar, a uma caminhada, a uma reflexão. Declinou-os todos: talvez depois; o celular, tal como ele, mal dormira a noite inteira, lembrando-o de horários e de compromissos. Avisou-o algumas vezes de que havia gente em casa querendo falar, mas agora não havia tempo. Sabia que estava esquecendo de algo, mas convencia-se com uma falsa certeza de que não devia ser importante, caso contrário lembrar-se-ia, claro; e, ainda que fosse, com essa mesma certeza, repetia para si mesmo que um presente comprado no aeroporto no dia da volta compensaria qualquer falta.

Haverá tempo, um dia. Mas não agora.


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23 de mar de 2009

:: Regalo ::

De todas as noites que poderia escolher, escolheu aquela; tão boa quanto qualquer outra.

Antes disso, quando o que havia a ser feito já se fizera, deixou-se demorar no banho. Sobre a cama, o terno que mandara fazer sob encomenda, o único em toda a sua vida, descansava próximo à taça de vinho tinto: uma safra de Syrah inigualável, fazendo da garrafa uma pequena fortuna líquida, mas que reafirmava a própria valia a cada novo gole. No curso, aprendera a apreciar vinhos, ainda que todos os seus amigos destilassem desapreço por tal conhecimento; mas que diabo, só se vive uma vez.

A reserva estava feita, planejada há tantos meses quanto necessário: às 21h, mesa em frente ao lago. Era época de trufas brancas, como já sabia, e pretendia enfim degustá-las em uma entrada e deixar-se perder pelo vultoso cardápio até encontrar qualquer coisa que lhe saltasse aos olhos como prato principal. Que diabo, só se vive uma vez.

Dali, talvez para o velho bar cubano, onde os tambores marcam o ritmo da madrugada até as primeiras horas da manhã, ainda que ele fosse ficar ali apenas tempo o suficiente para imaginar-se em Varadero uma última vez, para talvez um charuto, já que agora não faria tanta diferença, e para, talvez, um mojito.

Já não pensava mais se chamaria alguém para encontrar consigo; preferia deixar que a sorte conduzisse o pouco que lhe deixara confiado, e preferia aproveitar qualquer mudança que eventualmente acontecesse, enquanto ainda houvesse fôlego, e enquanto restasse qualquer níquel em sua conta. Hoje, abria mão de todos; afinal, que diabo, só se vive uma vez.

Ao menos até esta noite, tão boa quanto qualquer outra.


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16 de mar de 2009

:: Dissonante ::

No meio da noite, acordou agitado, encharcado em suor.

Levantou-se, lavou o rosto, pensou se deveria ou não pegar uma bebida. Próximo à janela, deixou que o ar da noite lhe invadisse os pulmões e aplacasse a ansiedade. Quis saber que horas eram e, quase ao mesmo tempo, riu da ironia, parando de procurar o relógio. Tantos andares acima da madrugada, ouvia uma garrafa de vidro que caía, sem quebrar, em algum lugar, como se acontecesse ali mesmo ao seu lado; ouvia as buzinas dos carros anunciando-os a ninguém, quando passavam procurando um rumo, e colocava-se no assento do carona de cada um deles, deixando-se levar para onde quer que fossem.

Longe dali.

Repassou os passos que lhe esperavam ao amanhecer, e tentava enxergar-se no terno que estava há horas esperando na sala. Repassou os passos que o levaram até ali, procurando em si mesmo os desvios no caminho, procurando em si mesmo os motivos que, fugidios, pareciam mostrar-se apenas o suficiente para deixá-lo mais confuso, escondendo-se novamente na penumbra da razão.

Engoliu, enfim, alguma bebida; em mais algumas horas já não faria diferença o que acontece aqui, ou o que acontece em qualquer outro lugar; uma única realidade, constante e ininterrupta, lhe faria companhia até quando tudo o que conhece desaparecesse ou simplesmente já não fizesse mais sentido; quando tudo o que conhece já não mais tivesse a paciência de, quando enfim pudesse novamente mostrar-se, estender-lhe a mão para que tentassem andar juntos outra vez.

"Um novo mundo." - repetia, sem querer, vendo a si mesmo anos à frente, com algumas notas no bolso, um envelope pardo na mão e, talvez, uma carta de recomendação ou coisa que o valha.

Ameaçava amanhecer e queria ter a certeza de lembrar-se por tanto quanto pudesse de cada detalhe em sua cama; então se pôs deitado, deixando-se olhar para o teto por mais um pouco. Enquanto sorvia o último gole do copo, colocava-se outra vez, em seu sonho acordado, vagando noite adentro em um carro qualquer, em alta velocidade.

E, nele, seguia para lugar nenhum, longe dali.

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9 de mar de 2009

:: Probare ::

E se, por hoje, não disséssemos palavras ruins e você apenas me contasse como foi seu dia?

E se hoje não houvesse discussão por tudo e por nada, e nos só ouvíssemos Waiting For The Moon To Rise no mesmo volume em que a ouvimos parados em frente ao mar, em meu carro, naquela noite cada vez mais esquecida?

Talvez por hoje pudéssemos não tirar a mesa e nem lavar a louça, e deixar de lado a desarrumação da casa, tornando-a maior ao espalhar as roupas que vestimos agora. Talvez, por hoje, pudéssemos deixar de lado as contas que temos a pagar amanhã, a razão que você afinal tinha sobre o valor delas ou a que tinha eu sobre o seguro do carro, e ocuparmo-nos de nós mesmos sem pensar se está tarde ou se precisamos acordar cedo. Talvez pudéssemos deixar-nos estar madrugada adentro perdidos em nossos próprios movimentos, em nossos próprios olhares e em nosso próprio calor, despidos de pudores e de receios.

E se, por hoje, fôssemos aquilo que dissemos e que acreditávamos ser quando nos conhecemos, quando a audácia do imediatismo nos fazia mais sinceros conosco e com os outros?

E se, ainda que só por hoje, deixássemos de fora o que mostramos ser aos outros?

Assim, espero.

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2 de mar de 2009

:: Ciclo ::

Como fazia todos os dias, acordou cedo, antes do despertador, e colocou-se em frente ao espelho. Olhou para o rosto que lhe parecia cada vez menos familiar, para o cansaço que se acumulava em forma de olheiras, para o cabelo que lhe caía sobre a face sem que ninguém o houvesse tocado.

Escovou os dentes, na mesma ordem em que o fazia sempre: primeiro os de trás, depois os da frente, e bochechou com enxaguante de hortelã primeiro do lado direito e depois do esquerdo.

Fez o café, deu comida ao gato, engoliu dois comprimidos de codeína porque a cama já vinha há tempos acabando com suas costas. Era preciso um colchão novo, e repetia-o em voz alta vezes sem conta há mais de um mês.

Enquanto se arrumava, ouvia notícias ou alguma música. Impressionava-se com as histórias que vinham de lugares distantes, e colocava-se a pensar como seria estar ali, viver ali, andar por algumas das ruas que contam tanto a tantos.

Planejava há muito uma viagem para longe. Já havia juntado dinheiro suficiente, panfletos turísticos o suficiente, pesquisado o suficiente na internet e traçado roteiros o suficiente. Mas não havia tempo agora, afinal o trabalho se acumulava e, se não se livrasse dos papéis sobre a mesa, em breve estariam ocupando toda a sala. O cargo que mantinha em sua empresa não era o que queria da vida, sabia muito bem disso, e logo iria buscar algo que lhe fizesse mais feliz, que lhe fizesse um ser humano mais completo.

Já sabia o que era e em breve abraçaria a idéia. Repetia-o em voz alta vezes sem conta, há mais de dez anos.

Antes de sair, conferiu se todas as janelas e torneiras estavam fechadas. Conferiu a porta duas vezes. Seguiu para o elevador.

E foi para o trabalho, como fazia todos os dias.

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