2 de mar de 2009

:: Ciclo ::

Como fazia todos os dias, acordou cedo, antes do despertador, e colocou-se em frente ao espelho. Olhou para o rosto que lhe parecia cada vez menos familiar, para o cansaço que se acumulava em forma de olheiras, para o cabelo que lhe caía sobre a face sem que ninguém o houvesse tocado.

Escovou os dentes, na mesma ordem em que o fazia sempre: primeiro os de trás, depois os da frente, e bochechou com enxaguante de hortelã primeiro do lado direito e depois do esquerdo.

Fez o café, deu comida ao gato, engoliu dois comprimidos de codeína porque a cama já vinha há tempos acabando com suas costas. Era preciso um colchão novo, e repetia-o em voz alta vezes sem conta há mais de um mês.

Enquanto se arrumava, ouvia notícias ou alguma música. Impressionava-se com as histórias que vinham de lugares distantes, e colocava-se a pensar como seria estar ali, viver ali, andar por algumas das ruas que contam tanto a tantos.

Planejava há muito uma viagem para longe. Já havia juntado dinheiro suficiente, panfletos turísticos o suficiente, pesquisado o suficiente na internet e traçado roteiros o suficiente. Mas não havia tempo agora, afinal o trabalho se acumulava e, se não se livrasse dos papéis sobre a mesa, em breve estariam ocupando toda a sala. O cargo que mantinha em sua empresa não era o que queria da vida, sabia muito bem disso, e logo iria buscar algo que lhe fizesse mais feliz, que lhe fizesse um ser humano mais completo.

Já sabia o que era e em breve abraçaria a idéia. Repetia-o em voz alta vezes sem conta, há mais de dez anos.

Antes de sair, conferiu se todas as janelas e torneiras estavam fechadas. Conferiu a porta duas vezes. Seguiu para o elevador.

E foi para o trabalho, como fazia todos os dias.

...


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