16 de mar de 2009

:: Dissonante ::

No meio da noite, acordou agitado, encharcado em suor.

Levantou-se, lavou o rosto, pensou se deveria ou não pegar uma bebida. Próximo à janela, deixou que o ar da noite lhe invadisse os pulmões e aplacasse a ansiedade. Quis saber que horas eram e, quase ao mesmo tempo, riu da ironia, parando de procurar o relógio. Tantos andares acima da madrugada, ouvia uma garrafa de vidro que caía, sem quebrar, em algum lugar, como se acontecesse ali mesmo ao seu lado; ouvia as buzinas dos carros anunciando-os a ninguém, quando passavam procurando um rumo, e colocava-se no assento do carona de cada um deles, deixando-se levar para onde quer que fossem.

Longe dali.

Repassou os passos que lhe esperavam ao amanhecer, e tentava enxergar-se no terno que estava há horas esperando na sala. Repassou os passos que o levaram até ali, procurando em si mesmo os desvios no caminho, procurando em si mesmo os motivos que, fugidios, pareciam mostrar-se apenas o suficiente para deixá-lo mais confuso, escondendo-se novamente na penumbra da razão.

Engoliu, enfim, alguma bebida; em mais algumas horas já não faria diferença o que acontece aqui, ou o que acontece em qualquer outro lugar; uma única realidade, constante e ininterrupta, lhe faria companhia até quando tudo o que conhece desaparecesse ou simplesmente já não fizesse mais sentido; quando tudo o que conhece já não mais tivesse a paciência de, quando enfim pudesse novamente mostrar-se, estender-lhe a mão para que tentassem andar juntos outra vez.

"Um novo mundo." - repetia, sem querer, vendo a si mesmo anos à frente, com algumas notas no bolso, um envelope pardo na mão e, talvez, uma carta de recomendação ou coisa que o valha.

Ameaçava amanhecer e queria ter a certeza de lembrar-se por tanto quanto pudesse de cada detalhe em sua cama; então se pôs deitado, deixando-se olhar para o teto por mais um pouco. Enquanto sorvia o último gole do copo, colocava-se outra vez, em seu sonho acordado, vagando noite adentro em um carro qualquer, em alta velocidade.

E, nele, seguia para lugar nenhum, longe dali.

...


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