23 de mar de 2009

:: Regalo ::

De todas as noites que poderia escolher, escolheu aquela; tão boa quanto qualquer outra.

Antes disso, quando o que havia a ser feito já se fizera, deixou-se demorar no banho. Sobre a cama, o terno que mandara fazer sob encomenda, o único em toda a sua vida, descansava próximo à taça de vinho tinto: uma safra de Syrah inigualável, fazendo da garrafa uma pequena fortuna líquida, mas que reafirmava a própria valia a cada novo gole. No curso, aprendera a apreciar vinhos, ainda que todos os seus amigos destilassem desapreço por tal conhecimento; mas que diabo, só se vive uma vez.

A reserva estava feita, planejada há tantos meses quanto necessário: às 21h, mesa em frente ao lago. Era época de trufas brancas, como já sabia, e pretendia enfim degustá-las em uma entrada e deixar-se perder pelo vultoso cardápio até encontrar qualquer coisa que lhe saltasse aos olhos como prato principal. Que diabo, só se vive uma vez.

Dali, talvez para o velho bar cubano, onde os tambores marcam o ritmo da madrugada até as primeiras horas da manhã, ainda que ele fosse ficar ali apenas tempo o suficiente para imaginar-se em Varadero uma última vez, para talvez um charuto, já que agora não faria tanta diferença, e para, talvez, um mojito.

Já não pensava mais se chamaria alguém para encontrar consigo; preferia deixar que a sorte conduzisse o pouco que lhe deixara confiado, e preferia aproveitar qualquer mudança que eventualmente acontecesse, enquanto ainda houvesse fôlego, e enquanto restasse qualquer níquel em sua conta. Hoje, abria mão de todos; afinal, que diabo, só se vive uma vez.

Ao menos até esta noite, tão boa quanto qualquer outra.


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