13 de abr de 2009

:: Ankh ::

O relógio marcava 18h. Dia 14.

Acordava somente agora, mas como se não houvesse dormido um só minuto. Olhou assustado para um quarto que não reconhecia, imenso e parcamente mobiliado: apenas a cama, que não disfarçava seu esforço para mantê-lo sobre si, uma cadeira e uma escrivaninha que sustentava um pequeno busto de alguém que não conhecia e que parecia olhá-lo de soslaio. Todo o cômodo estava tomado por um cheiro intenso de poeira e de tempo, estranhamente decorado com pesadas cortinas de veludo e com um papel de parede que fingia-se de flores do campo, descolando-se eventualmente aqui e ali.

Fechou a pequena fresta por onde o sol espreitava. Parecia que sua fotofobia havia alcançado um novo patamar. Talvez fosse o prenúncio de uma enxaqueca sem precedentes.

Dia 14? - Caiu em si - Não. O relógio certamente estava errado. Era dia 11.

Doíam-lhe os olhos, as costas, as mãos. Estava sem camisa, sem saber o motivo, e via por todo o corpo cortes e marcas. Sentia que também as tinha no pescoço e no rosto. Sentia na boca um terrível gosto de metal.

Levantou-se para ir àquela sugestão de banheiro que se escondia atrás de uma porta, à procura de um espelho que não encontrou. Lavou o rosto. Apercebeu-se, de repente, de quanta fome sentia. Doía-lhe o estômago como se nunca houvesse comido coisa alguma na vida, e tentou acalmá-lo com um gole de água: cuspiu-a mal encostara a língua. Não parecia diferente de qualquer outra, mas por uma razão qualquer era simplesmente intragável.

Voltou e sentou-se novamente.
Em sua memória, a noite anterior estava envolta em névoa. Mas lembrava-se de algumas coisas.

Lembrava-se de sair de casa sozinho, para uma ou duas bebidas. Lembrava-se de querer ir a algum lugar diferente, onde não estivessem as pessoas que via sempre, onde as músicas não fossem aquelas que se ouve sempre. Lembrava-se de andar por aí até lhe parecer ouvir Zeromancer saindo de uma ruela pouco iluminada, pouco movimentada. Atraído pela música, lembrava-se de descer as escadas em um lugar chamado... Wood... Wood alguma coisa. Wood Life, talvez. Não importa.

Ajeitou-se na cama. Estava quente como o inferno, mas não suava. Abrir a janela, nem pensar. Precisava de alguma bebida. O que estava acontecendo?

Lembrava-se de ser bem recebido no tal lugar, lembrava-se de parecer ser a única cara nova por lá, como se todos se conhecessem há muito tempo. Pensou na ironia da coisa, dado o motivo que o levara até ali. Lembrava-se de vê-los todos celebrando algo que ninguém lhe disse o que era, com grandes taças de vinho nas mãos. Lembrava-se de dançar com as duas mulheres mais lindas que já vira na vida. Lembrava-se de beber. Lembrava-se de estarem todos juntos.

A partir dali, tudo o mais parecia fugir-lhe da mente. Restavam flashes que já não sabia se eram parte do que quer que tenha acontecido depois ou dos sonhos estranhos que tivera até acordar naquele lugar.

Fosse como fosse, era hora de ir embora. Vestiu o casaco, verificou os bolsos e viu que tudo estava intacto: carteira, documentos, dinheiro - ainda que, claro, menos do que esperava. Havia também um bilhete: "Nos vemos no Woodpile".

Woodpile. Era esse o nome do bar. Woodpile.

Riu. "Essa é uma noitada para ficar para a história", disse em voz alta para si mesmo. Conferiu se o sol tinha se posto: se havia coisa que não queria agora era claridade ou calor. A simples idéia de ficar exposto ao astro-rei lhe parecia inconcebível.

Caminhou para a porta, resolvido a não se preocupar demais com as coisas, e deu de ombros. Era hora de molhar a garganta, antes que essa sede inexplicável acabasse por consumi-lo por completo.

...


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