27 de abr de 2009

:: Intermezzo ::

Ela permanecia sentada em sua cama muito depois de todos se terem levantado, olhando pela janela e vendo a si mesma do lado de fora, caminhando em direção à cerca que a levaria de volta às ruas, de volta à cidade que cresceu impiedosamente sobre suas lembranças, de volta, talvez, aos pensamentos daqueles que a deixaram ali sob a promessa de lhe virem logo buscar, apenas para se deixarem ocupar demais e pensar que não faria tanta diferença assim se, afinal, o fizessem apenas no dia seguinte ou ainda no outro, ou até se não a vissem tantas vezes. "Ela está bem", era o que diziam para si mesmos.

Já não era capaz de dizer com certeza quando fora a última vez em que estiveram lá. Talvez ontem. Ou na semana passada, ou no mês passado. Talvez nunca.

Mas permanecia ali, arrumada como no dia em que chegou: maquiagem leve, apenas para dar alguma cor ao rosto e emprestar mais vida aos olhos; vestido com motivos florais, escuro e delicado, sempre capaz de arrancar elogios de quem quer que o visse, e um pequenino chapéu que trouxera de uma viagem feita há mais tempo do que se dispunha a lembrar. Óculos de aros finos, um perfume suave e luvas de seda para proteger as mãos.

Ao lado da cama, conformada em sua impaciência, a mala amarela guardava nas entranhas as roupas de outra época, perfeitamente dobradas. Nas gavetas do armário, apenas aquilo que poderia, se fosse o caso, ser descartado. Sobre o criado-mudo, um abajour que não era o seu, e a foto que lhe saudava todos os dias pela manhã; nela, posando como já não se faz, estava sentada em uma cadeira, segurando a filha mais velha, enquanto o marido, imponente, permanecia em pé com a mão direita pousada sobre seu ombro.

Como em todos os dias, chegava a enfermeira ao seu lado convidando-a para as refeições, às quais comparecia sob a promessa de que a chegada de alguém à sua procura lhe seria comunicada imediatamente.

E voltava para sua cama, e para si mesma, até que o inevitável final do dia soprasse areia em seus olhos e lhe dissesse que, afinal, a próxima manhã talvez trouxesse consigo novas esperanças.

Então sonhava intensamente, com a vida que mantinha em si, e gargalhava às vezes em tal altura que despertava de suas próprias fugas os seus vizinhos de quarto e convocava às pressas as plantonistas, até então absortas em alguma das incansáveis reprises das madrugadas televisivas.

Veio a nova aurora, e a mão da enfermeira em seu ombro, e a promessa e a mesa do café, onde histórias eram repetidas e ouvidas como na primeira vez em que ganharam voz.

Foi quando enfim, espantado por ganhar vida, um sorriso tomou conta do seu rosto sem que ela ao menos precisasse olhar para o lado para entender o que se passava.

À porta do refeitório, mãos sobrepostas, sua enfermeira e confidente a olhava entre incrédula e emocionada, sorrindo cúmplice e dizendo finalmente, com todo o corpo, que "sim".


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