20 de abr de 2009

:: Salamandra ::


Naquela noite ele saiu do motorhome e sentou-se junto ao fogo. Colocou a grande chaleira sobre a lenha e deixou que as chamas lhe esquentassem os pés enquanto reclinava-se na cadeira de praia. Esqueceu o rádio ligado em alguma estação que dividia seus minutos entre conselhos de última hora e músicas que pareciam permitidas apenas em momentos como aquele, apenas em horas silenciosas.

Por isso, poderia jurar que alguém o observava quando, na voz de Neil Diamond, começavam os primeiros acordes de Solitary Man.

Pôs-se a pensar em como chegara até ali, em como havia se tornado o que era. Pensou onde poderia estar se as escolhas que fizera tempos atrás fossem outras, pensou no que diria se lhe fossem apresentadas novamente as mesmas possibilidades, pensou em que tipo de pessoas poderia ter econtrado pelo caminho e no quanto elas poderiam lhe ter levado a um ou a outro destino. Pensou no poder presente em cada palavra, pensou no que dissera a uns e outros e no que poderia ter acontecido se uma entonação diferente tivesse sido escolhida para pontuar o final de uma idéia.

Enquanto o vento açoitava as árvores, despertando cães que com um só latido convocavam-se uns aos outros, imergia nas cores que dançavam na fogueira, acompanhava o trajeto dos pequenos pontos de luz que nasciam das chamas e lançavam-se impetuosamente rumo ao céu apenas para, instantes depois, tornarem-se novamente um só com a noite.

- É melhor queimar de uma vez do que apagar-se aos poucos... - disse, citando
Neil Young em voz alta para si mesmo.

E então, num ímpeto, apertou as mãos e os dedos contra as pernas com tal força que pequeninas gotas de sangue enfileiraram-se confusas à frente das unhas, buscando entender o que acontecia. Sentiu transpirar nas costas e faltar-lhe o ar. Cerrou os olhos até ver flashes de luz passearem por suas pálpebras e, antes que eles lhe oferecessem alguma lágrima com que lavar o rosto, abriu-os com uma certeza tão profunda que o vento pareceu interromper o próprio trajeto para dar-lhe toda a sua atenção.

Mas não havia nada a dizer. Não havia palavras para o que acontecia agora. Olhou para a fogueira mais uma vez, e uma gargalhada profunda e doída, carregada de toda uma vida, emergiu. A chaleira que o acompanhava há tantos anos, cúmplice, jogou-se aliviada para o lado, ofertando água para apagar o fogo e levar consigo às entranhas da terra todo aquele marasmo injustificável.

Sim, havia algum dinheiro. Havia gasolina. Havia um sorriso surgindo em seus lábios como há muito não acontecia. Havia brilho no olhar. Havia um calafrio, e havia excitação.

Não havia, ainda, destino.
Mas esse a própria estrada iria lhe apontar.

...

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