6 de abr de 2009

:: Terpsícore ::

Algumas manhãs, especialmente as chuvosas, pareciam despontar só para ela. Levantava-se lentamente, procurando os chinelos com os pés, no quarto tão escuro quanto conseguira deixá-lo. Andava até as cortinas com a esperança de ver as gotas estourando na vidraça e, assim, abrir um sorriso que só elas são capazes de lhe dar. Abria um pouco a janela e deixava molharem-se o rosto e as mãos, deixava o perfume da grama encharcada na colina encostada ao prédio invadir o aposento e trazer consigo o frio.

E então lembrava-se de anos perdidos na névoa, quando corria por gramados altos em montanhas das quais a maioria das pessoas jamais ouviria falar. Lembrava-se de sentar à beira de um lago de águas tão cristalinas que mal pareciam existir, enquanto nela via criaturas que reverenciavam sua passagem quando decidia despir-se e mergulhar. Lembrava-se de ficar ali até quando o sol parecia tocar a água e inundar tudo o que os olhos alcançavam de um vermelho vivo, intenso; lembrava-se de quando o via, cerimonioso, entregar-se ao azul profundo que emergia sob as ordens de uma lua majestosa, imensa. Lembrava-se de dançar noite adentro, abençoada pelas estrelas e pelos olhares dos deuses.

E, claro, lembrava-se das tormentas. Lembrava-se de celebrar sua vinda com suas irmãs, de braços abertos. Ri quando vê, hoje, esses homens e mulheres que escondem-se das gotas mal elas aparecem, que trancam-se em casa à luz de um televisor, mastigando um falatório qualquer, dizendo a uns e outros que ali ficarão porque, afinal, está chovendo.

Em dias como esse, há menos pessoas na rua. Por isso é que lhe trazem à memória os tempos simples, quando era possível parar em algum lugar e não ver alma viva em qualquer direção, quando pradarias estendiam-se para muito além de qualquer fôlego, quando o azul do céu não era violado por aberrações de metal nem a terra ferida por concreto e asfalto, quando todas as criaturas podiam chamar-se pelo nome, e sabiam do que gostavam, e para onde iam, e porquê.

Encontraria suas irmãs hoje, depois de tantas eras. Viriam com o vento e estariam ali, sob a chuva, como faziam desde tempos esquecidos pela história, quando a velha colina dominava a vastidão alcançada pelos olhos, quando eram elas inspiração e alvo de uma miríade de poetas e músicos, e quando todos os dias terminavam em cores inimagináveis e perfumes inebriantes.

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