25 de mai de 2009

:: Nota ::

Saio agora. Sinto muito se sua opinião já não é importante para mim. Aliás, não. Não sinto. Seja como for, saio agora com a certeza de que fiz tudo o que podia, ainda que você não tenha notado, ocupada que estava com seus mil e um afazeres dispensáveis, com sua academia, com suas amigas, com o e-mail que precisava seguir até o final do dia.

Deixo o dinheiro para pagar as contas que dividíamos, certo de que assim serei lembrado por você pelo menos no próximo dia 5. Diria que talvez até ele, mas não quero parecer pretensioso. Não esqueci os sapatos: deixei-os para que lhes dê o destino que quiser; não os quero levando-me pelos caminhos que pretendo seguir, ainda que não tenha idéia, ainda, de quais serão. Deixo, também, a foto que tiramos em Sierra Nevada, ainda que goste muito dela; mas penso que é melhor que fique onde está, pois não a quero trazendo-me à memória aqueles pensamentos que fazem parecer que todo o resto não nos acontecia, não nos consumia, não nos soterrava em indiferença. Não a quero ancorando-me ao passado, impedindo-me de ver que ainda há vida a ser vivida, que ainda há pessoas a conhecer e que ainda há portos onde atracar.

Não deixo endereço ou telefone, porque por hora não os tenho, e confesso o desejo de manter-me assim, perdido, apreensivo diante de um mundo que parece tão maior do que aquele que eu via de longe, pela janela da sala, tantas vezes durante as madrugadas insones. Quero saborear o medo do desconhecido, a incerteza a respeito do dia seguinte, a névoa que se estende quando tento olhar para o futuro.

Não pense que a partida me faz eufórico. Não pense que lamento partir. Não pense que suas atitudes, hoje, me fazem odiá-la, e nem que me parte o coração fechar, pela última vez, a porta daquela que foi nossa casa enquanto nossos sonhos encontravam-se em algum lugar no horizonte.

Um dia, quem sabe, talvez nos encontremos por aí. Já aconteceu antes, pode acontecer novamente.

Eis, sobre este recado, meu chaveiro. Não acho que tão cedo vá precisar de qualquer chave: vou, agora, rumo a um destino que não se esconde por trás de portas fechadas.

Até.

...

18 de mai de 2009

:: Soma ::

Porque antes, havia a esperança de viver com ela em uma bela casa, para sempre.

Porque antes, havia a esperança de viver com ela em uma bela casa.

Porque antes, havia a esperança de viver com ela.

Porque antes, havia a esperança de viver.

Porque antes, havia a esperança.

Porque, antes, a via.

...



Ps: amigos, estou viajando; Viva a função "post programado" do Blogger! ;-) Assim sendo, responderei a quem deixar comentários assim que possível, ok? Abraços.



...





11 de mai de 2009

:: Polímnia ::

Ela preparou-se para cantar.
E, quando cantava, o firmamento parava para lhe dar atenção.

O vento cessava sua incansável conversa com as folhas, e o mar se aquietava para que as ondas não estourassem sobre a areia. Os rios interrompiam seu curso, emudecendo as cataratas, e os animais paravam em seus caminhos; os pássaros, mais do que os outros, atentavam para as notas que sonhavam, um dia, alcançar.

As criaturas da noite, sempre agitadas em suas artimanhas, permitiam-se alguma quietude; as do dia, ansiosas, colocavam-se à frente de todos.

E chegavam aqueles que não têm nome, ocupando a pradaria, e chegavam aqueles que sempre são, cuja idade já não pode mais ser medida. Chegavam aqueles que povoam os ares, tão delicados que um olhar desatento nem sequer lhes consegue enxergar, e para eles estendem seus galhos todas as árvores ao redor, oferecendo, em si, lugar. Chegavam aqueles que vêm das entranhas da terra, trazendo consigo o odor da escuridão, trazendo consigo os que já não são, empalidecidos e gratos por sentir, uma vez mais, o ar leve e perfumado, carregado de pólen e de segredos sussurrados. Chegavam os Guardiões das Torres do Norte e os das Torres do Sul, chegavam os das Terras Esquecidas, chegavam os gigantes do leste e os solitários do oeste.

Em harmonia punham-se todos, reverentes.

Então chegava ela, vestida com a primeira luz da manhã, ornada com pedras que só vieram a existir porque ela as usaria, ofertadas por aqueles que, de suas moradas inalcançáveis, olhavam dia a dia a vida seguir seu rumo.

O sorriso dela anunciava sua voz, e ao vê-lo, a própria existência sustinha a respiração.

E enfim ela cantava, e seu canto revolvia os limites da razão, alcançava os recantos do desconhecido, fazia tremer as Grandes Forças e gemer em êxtase os universos invisíveis, fazia gritar as dimensões, unia certo e errado e noite e dia e agonia e prazer e riso choro dentes lágrimas pele olhos pêlos tempo espaço até... a plenitude, absoluta, indiscutível, incompreensível: eram todos um.

Assim, enquanto durava a canção, todo o sentido de tudo o que é, de tudo o que foi e de tudo o que deveria ser parecia, enfim, claro, delineado pelos contornos dos seus floreios.

Nesses breves momentos, o universo mostrava seu rosto.

...

4 de mai de 2009

:: Imersão ::



Entrou na casa quando já a sabia vazia, quando todos já tinham estado ali e revistado gavetas e cômodas, quando já haviam olhado dentro dos porta-jóias e nos lugares mais escondidos dos armários. Entrou quando a chegada da noite mandara todos de volta aos seus covis, uma vez que assim pensava dos lugares onde moravam, e quando a luz das televisões vizinhas já era mais do que o suficiente para drenar toda a atenção que barulhos ou movimentos pudessem atrair para onde estava.

Chegou sentindo, no ar, o tempo congelado; sua chave era a que abria a cozinha, e fez questão de caminhar descalça sobre o azulejo frio, refrescando as memórias de quando havia ali movimento e riso e cheiros e sabores, de quando ia ela própria buscar lenha para o antiquíssimo fogão em ferro fundido que permanecia intocável por gerações, dando vida às receitas que passavam de mão em mão, de sussurro em sussurro, como segredo inviolável.

Trazia consigo uma chaleira, e trazia erva-cidreira. Havia ainda, lá, água, e era boa. Acendeu o fogo com um produto químico qualquer, concessão inevitável, e sobre ele colocou-a para aquecer.

Caminhou com lentidão até a sala, sentindo a madeira reclamar, aos estalos, sob seu peso, sentindo o cheiro do carvalho dos móveis antigos anunciar sua presença, ainda que escondidos, tímidos, sob lençóis apressadamente atirados sobre eles. Já não estava lá o imenso relógio de chão, que viu tantas vezes, contrariado, seu badalo ser forçado a parar quando chegavam as horas da noite e o sono reclamava o lugar. Já não estava o piano, já não estavam as pratarias, já não estava o tapete feito à mão, comprado após a intensa barganha numa pequena loja perdida no Cairo.

Havia silêncio e, enfim, algum respeito.

Sobre a mesa colocada ali para a partilha, à qual ela recusou-se a comparecer, o único bem que reclamara: em uma caixa, o conjunto de doze peças para chá, com suas xícaras e pires apavorados por enfim verem-se fora da cristaleira, onde ficaram por anos a fio impedidos de sair, esperando pelo grande momento em que, prometeram-lhes, seriam usados para servir a uma visita especial, ou para comemorar uma grande conquista, ou para celebrar o que quer que fosse.

Mas passaram os anos, vieram os acontecimentos e as conquistas e as visitas, e lá estiveram elas, as peças, a olhar, através do vidro impecavelmente limpo, a vida acontecendo aqui fora, enquanto, aqui fora, ninguém via pelo que celebrar.

Agora ela segurava a frágil porcelana, segurava em seu choro contido uma enormidade de motivos, segurava idéias, e possibilidades e momentos que recusam-se a voltar.

E no mesmo instante em que pousou a xícara sobre o pires, a chaleira confidenciou da cozinha, em um longo e sonoro silvo, que sabia também que tinha de ser ali.


...