11 de mai de 2009

:: Polímnia ::

Ela preparou-se para cantar.
E, quando cantava, o firmamento parava para lhe dar atenção.

O vento cessava sua incansável conversa com as folhas, e o mar se aquietava para que as ondas não estourassem sobre a areia. Os rios interrompiam seu curso, emudecendo as cataratas, e os animais paravam em seus caminhos; os pássaros, mais do que os outros, atentavam para as notas que sonhavam, um dia, alcançar.

As criaturas da noite, sempre agitadas em suas artimanhas, permitiam-se alguma quietude; as do dia, ansiosas, colocavam-se à frente de todos.

E chegavam aqueles que não têm nome, ocupando a pradaria, e chegavam aqueles que sempre são, cuja idade já não pode mais ser medida. Chegavam aqueles que povoam os ares, tão delicados que um olhar desatento nem sequer lhes consegue enxergar, e para eles estendem seus galhos todas as árvores ao redor, oferecendo, em si, lugar. Chegavam aqueles que vêm das entranhas da terra, trazendo consigo o odor da escuridão, trazendo consigo os que já não são, empalidecidos e gratos por sentir, uma vez mais, o ar leve e perfumado, carregado de pólen e de segredos sussurrados. Chegavam os Guardiões das Torres do Norte e os das Torres do Sul, chegavam os das Terras Esquecidas, chegavam os gigantes do leste e os solitários do oeste.

Em harmonia punham-se todos, reverentes.

Então chegava ela, vestida com a primeira luz da manhã, ornada com pedras que só vieram a existir porque ela as usaria, ofertadas por aqueles que, de suas moradas inalcançáveis, olhavam dia a dia a vida seguir seu rumo.

O sorriso dela anunciava sua voz, e ao vê-lo, a própria existência sustinha a respiração.

E enfim ela cantava, e seu canto revolvia os limites da razão, alcançava os recantos do desconhecido, fazia tremer as Grandes Forças e gemer em êxtase os universos invisíveis, fazia gritar as dimensões, unia certo e errado e noite e dia e agonia e prazer e riso choro dentes lágrimas pele olhos pêlos tempo espaço até... a plenitude, absoluta, indiscutível, incompreensível: eram todos um.

Assim, enquanto durava a canção, todo o sentido de tudo o que é, de tudo o que foi e de tudo o que deveria ser parecia, enfim, claro, delineado pelos contornos dos seus floreios.

Nesses breves momentos, o universo mostrava seu rosto.

...

Nenhum comentário: