22 de jun de 2009

:: Ceifa ::

O velho falava devagar, tão baixo que parecia não querer ser ouvido, a não ser por si mesmo, e repetia a mesma história todos os dias, da hora em que o bar abria até a tardinha, quando as crianças saíam em algazarra do colégio e paravam ali para comprar doce de abóbora e conferir se a geladeira enfim havia sido consertada e os sorvetes recolocados à venda, coisa que nunca acontecia.

Nesse meio-tempo, olhavam para o velho como quem olha para uma peça de museu, o que ele quase certamente poderia ser, sentado na cadeira de metal que já pendia para a direita e que forçava-o a apoiar-se contra a parede azulejada, para evitar um tombo. Já lhe tinham sido oferecidas umas tantas outras, mais confortáveis e melhor dispostas para o trabalho, mas ele recusava-as todas sem deixar entender se por mania ou por medo de achar-se inconveniente. Do mesmo jeito, sem saber bem por que, o dono do bar já não cobrava há tempos pelas cervejinhas e pratos de petiscos recém-saídos da frigideira que sempre colocava sobre sua mesa; já nem lembrava mais de quando o velho tinha chegado ali ou há quanto tempo ele aparecia no subir das portas, já nem lembrava o que o tinha feito acolher daquela forma um desconhecido que nem o próprio nome lhe dissera.

E ele permanecia lá, petiscando e falando, e quem chegasse mais perto recebia um sorriso de cortesia e podia saborear meia-dúzia de palavras perdidas, que incluíam alguma coisa sobre uma grande fazenda perdida no interior do Mato Grosso, sobre gente que trabalhava de sol a sol para, no final do mês, ainda ficar devendo dinheiro ao empregador, sobre caminhões que apareciam do nada e que iam embora carregando de tudo um pouco, inclusive alguns deles. Quem chegasse mais perto, e quisesse prestar mais atenção, ouviria sobre quando eles resolveram colocar fogo naquilo tudo e sair correndo mata adentro atrás de qualquer lugar que resolvesse aparecer, ouviria sobre dias e noites passados a céu aberto enquanto homens assustados olhavam uns para a cara dos outros tentando descobrir de onde vinham os latidos que pareciam ficar mais perto a cada segundo. E se, à essa altura, alguém resolvesse perguntar, o velho contaria que houve tiros e correria, contaria que acertou com uma pedra, num lance impossível, um cachorro que vinha de tão longe na escuridão que quase parecia feito, com ela, uma coisa só. Talvez ele contasse que, de todos os que fugiram com ele da fazenda naquele dia, só três chegaram à cidade e que ele nunca mais os viu. Talvez contasse que conseguiu carona por milhares de quilômetros até chegar ali, onde queria chegar, ainda que para ver que tudo estava mudado, que as pessoas estavam diferentes e esquecidas e apressadas. E uma vez contado tudo, enfim entenderiam por que é que ele ficava ali, todos os dias, e por que é que passeava com os olhos pelas ruas e azulejos, e por que é que deixava-se perder nos próprios pensamentos e por que é que dizia em voz alta a única coisa que dizia em voz alta, o número do estabelecimento, que era 83, e por que é que quando o fazia parecia tão cheio de propriedade, de autoridade, e por que é que, quando o fazia, sorria, ainda que seus olhos ficassem, sempre, marejados.

Mas era mais fácil para todos simplesmente deixá-lo ali, enquanto as mães pediam aos filhos que não falassem com ele e enquanto os adultos o cumprimentavam à distância com um movimento da cabeça, ao que o velho respondia, sempre, abaixando a sua e erguendo o copo de cerveja, que brilhava num dourado escuro de final de tarde, de riso de criança correndo e de cheiro de doce de abóbora, até que viesse a noite e ele fosse embora para onde quer que fosse todas as noites, já que ninguém procurara saber, repetindo a mesma história que repetia todos os dias, tão baixo que parecia não querer ser ouvido, a não ser por si mesmo.

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