15 de jun de 2009

:: L.E.R. ::

Ele acorda cedo para ir para o trabalho. Sinal para o ônibus, crachá, bate o ponto, anda até a baia, às vezes parando para um café, às vezes indo além do "bom dia" para a recepcionista: às segundas, sempre havia que falar sobre o final de semana: mas não há interesse algum, ou cumplicidade, ou vontade. Em sua mesa, memorandos. Post-it. Agenda. O calendário com uma ou outra data em preto: alguns dias do mês perdidos entre as semanas, tempo disponível para si. Mas ele já não sabe o que fazer consigo, já não sabe quem é quando não escreve, quando não vê o próprio nome em algum e-mail, quando não soluciona problemas de outros que, confuso, julga serem também seus.

Agora, meio-dia, bate o ponto. E o elevador, em silenciosa descida, e a catraca, e a rua: os óculos escuros protegem do sol. Comida a peso, refrigerante diet, café com adoçante: alguns assuntos da reunião das 15h, para chegar preparado. Da farmácia, um antiácido sabor limão.

De volta à baia, mais café: o corpo pede sono, impositivo. Os olhos perdidos nas ilhas do Taiti, sua proteção de tela, logo somem por trás dos gráficos azuis e rosados do Powerpoint, projetando uma grande curva de crescimento e a conquista de novos mercados na Europa.

Ele pergunta, para si mesmo, qual seria o cheiro da Capela Sistina.

Seis horas, o ponto, o bar. Algumas piadas, três cervejas, o ônibus. Em casa, banho e jornal da noite. Uma pesquisa na internet para conferir dados, ouvir duas ou três músicas. Agora, talvez, uma leitura: Neil Gaiman, e estrelas cadentes, e criaturas fantásticas. Algum sono, imagens indecifráveis, novamente a Capela Sistina.

Então, o despertador.

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