8 de jun de 2009

:: Maré ::

Ela acordou com o barulho das gaivotas refestelando-se com um banquete de sardinhas frescas: não havia barcos o suficiente para pescar todas, coisa que nunca se vira em tantos anos naquela baía, e que trazia aos rostos ressequidos e marcados dos pescadores sorrisos tão luminosos que faziam o próprio sol corar de vergonha. A noite seria longa, de muita música e cerveja, e nem mesmo aquele cheiro tão forte que quase se podia comer às colheradas conseguia desviar o humor da vila inteira.

- É o cheiro do dinheiro! - Alguém que passava sob a janela, lendo sem pudores os pensamentos dos outros, achou que devia comentar.

Era riso e festa o que enchia o dia, e ela desceu apressada para tomar parte. Preparou uma outra garrafa de café além daquela que oferecia todos os dias à porta da hospedaria a quem o quisesse, e todos sempre queriam, como também um bolo que pretendia servir de sobremesa no almoço dos hóspedes mas que, dadas as circunstâncias, teria melhor sabor agora. Jogou por cima da camisola o roupão que ganhara de um admirador, vindo de um porto do outro lado do mundo, e abriu a parte de cima da porta divida em duas que dava para a rua. Já no instante seguinte havia bolo e café passando de mão em mão, além de explicações de todos os tipos para a boa-vontade repentina dos peixes para atirarem-se à redes.

Mas a verdade era que pouco importava. Estavam todos, moradores, pescadores, visitantes, empresários e gaivotas, felizes demais para racionalizar a coisa. Talvez não tão felizes estivessem as sardinhas, mas como a iniciativa foi delas, sua opinião já não contava tanto.

Vieram os repórteres pela hora do almoço entrevistar tudo e todos, e não tiveram bolo depois da refeição na hospedaria, mas comeram doce de abóbora e ficaram felizes e satisfeitos do mesmo jeito. Compraram peixe aos quilos por uma pechincha e saíram apressados para procurar especialistas que explicassem o tal fenômeno que ninguém ali fazia questão de entender. Vieram então os caminhões-frigorífico, que levaram tudo embora e deixaram na mão dos vilões mais dinheiro do que eles costumavam fazer em um ano e nos seus rostos mais alegria do que tinham experimentado até aquele dia.

Veio a noite, e com ela a música e a cerveja, e quando mais se tinha dinheiro foi quando menos se cobrou por qualquer coisa na vila. Alguém decidiu que dali em diante a data seria feriado, menos, lógico, dessa vez, já que o dia chegou sem avisar e a ressaca ficou toda para o seguinte, impedindo todo mundo de trabalhar.

Cantaram, então, a felicidade madrugada adentro, e deixaram os pensamentos lá na lua que, misteriosa, escondia-se atrás de uma nuvem qualquer para não ter que explicar seus motivos para ninguém.


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