1 de jun de 2009

:: O Quatro ::

Chegamos, então, até aqui, nós os dois, mais distantes, mais desconhecidos um ao outro do que no primeiro dia em que nos vimos. Fomos despertados do torpor, quando enfim sua mão arrebatou-me do sonho que eu insistia em manter, ingênuo, débil, enfraquecido demais para tomar de um gole só a realidade tão evidente que esbofeteava-me no rosto com força tal que, ainda que a negasse, mantinha-me o cenho franzido e os olhos vermelhos.

Cheguei então àquela rua que nunca vi, na hora em que não planejei, carregando sentimentos que desconheço e nenhuma certeza no coração. Esperei olhando para a janela que pensava ser sua, quando me imaginava ao seu lado olhando por ela e vendo os que, aqui fora, andavam perdidos em seus mundos particulares, ignorantes do próprio desfortúnio, todos esses que não viviam o que eu pensava viver consigo, que nunca sentiram o que me permiti sentir, que seguiam desprovidos de uma graça que nem ao menos sabiam existir.

Era eu, agora, um deles, ali fora.

Vi quando a luz acendeu e sabia que mesmo que seu rosto despontasse já não o faria por mim, já não seria para me ver ou mesmo me imaginar. Estive experimentando lembranças avassaladoras, lá onde estive por tanto, onde a tive em momentos tão fugidios quanto você mesma, ao sair das minhas mãos rumo à indiferença e à frieza da luz fluorescente de um corredor branco e impessoal.

E hoje a vejo, então, de onde você não mais me vê, crendo ainda que um dia o fez, e a enxergo melhor do que jamais consegui, melhor do que jamais quis, e também a mim mesmo, perdido, iludido, acompanhando seus passos enquanto a vejo entregar-se tão facilmente a quem chega lhe dizendo uma dúzia ou meia de palavras compradas em um romance barato de banca de jornal, enquanto do que plantei tão pouco consegui colher. Vejo-a entregar-se abrindo mão de todos os pudores que ostentava, recomposta de todos os traumas que alegava para manter-se longe.

Questiono-me, sim: questiono os métodos, questiono os motivos, questiono o tempo que me trouxe até aqui, questiono o quanto mudei em função de nada, o quanto me deixei levar por desejos que nada tinham de palpáveis e por palavras que ouvia da sua boa, cuidadosamente escolhidas, apenas suficientes para me prenderem onde me pretendia, onde mostrou-se, afinal, lugar nenhum.

Estava eu, ali fora, agora.

Fechei os olhos sob a chuva fina que começava a cair, ansiando que a água fria anunciasse, enfim, o recomeço, a reconstrução do que eu fui e do que sentia antes que me devastasse o inverno sem fim que você trouxe consigo e que ofereceu-me como prenda impensável.

Era hora.

Abro a porta, ligo o motor, já não olho para trás

Pretendo agora esquecer o caminho, esquecer o que me trouxe aqui, esquecer o que pensei ter vivido enquanto nossos caminhos cruzaram-se no meu desejo e, então, já não mais saber para além de mim mesmo.

Agora, não a vejo mais em meu horizonte e talvez, com isso, possa enfim vê-lo com alguma clareza.

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