29 de jun de 2009

:: Prima Facie ::

Ela já não sabia como, mas chegara agora aos seus trinta e tal anos: a idade que os adolescentes olham e lhes parece tão distante, inalcançável; a idade que os idosos olham e lhes parece tão jovem, a idade onde ela ainda não sabia quem era, mas quando sentia que sua vida provavelmente deveria ter sido outra, quando sentia que deveria estar em outro lugar, fazendo outras coisas, conhecendo outras pessoas, tentando resolver situações que, estando onde está, nem sequer sabe que existem.

E, então, sem saber o que dizer ou sem que os outros pudessem ler os sentimentos em seus olhos, fechou-se, sorrindo seu melhor sorriso: aquele capaz de fazer todos pensarem que dentro de si havia apenas cores e música, aquele capaz de despistar o mais atento dos amigos, aquele que não admite outra resposta, além de outro sorriso, de quem o vê.

Assim, quando lhe trazem bolo e champagne, sorri impiedosamente, enfurecidamente, enquanto um DJ badalado exibe-se, perdido entre a batida e sua performance, ensurdecendo os pensamentos à sua volta.

Chegam pessoas que ela mal sabe quem são, mas que convinha convidar, e chegam aquelas que foram convidadas porque as primeiras foram e, alguém disse, não havia como chamar umas sem chamar as outras. Ela recebe presentes que ostentam os nomes dos presenteadores, beijinhos à distância, drinks de todos os lados e fumaça anônima, que lhe enche os pulmões e os poros, que lhe agarra a pele, os cabelos e as roupas, com ferocidade e sofreguidão.


E dança, porque é preciso, a música que colocam, porque todos o fazem e dão gritos e vão até o chão, porque a luz pisca num frenesi multicolorido hipnotizante que sufoca qualquer pensamento, que a empurra para um estado que, hoje, ela não sabe qual é, mas que lhe traz secura à garganta, e taquicardia, que lhe faz suar frio na testa e jurar que os rostos daqueles à sua volta transformam-se, à cada segundo, no de outras pessoas, no de outras coisas.

Era a festa que lhe davam, porque ninguém queria, naquela noite, ser quem era.

(Noite que, aliás, ela teria trocado de bom grado por um jantar em casa com suas duas amigas mais próximas, onde aproveitariam algumas taças de vinho tinto e uma boa fatia de Brie quente com geléia de damasco; onde aproveitariam uma comédia rasa da locadora e uma conversa que viria como viesse, despretensiosa, descomprometida, feita de palavras que evaporariam mal tocassem o ar.)

Foi quando viu todos ali, qual numa revelação, em outro lugar, onde ela não estava, ao qual não pertencia, e de onde também já não a viam: fora feita fantasma, que passou invisível por sua mesa e pegou a bolsa, que passou pela porta da boate rumo ao ar gelado da noite, rumo a um suspiro profundo, que correu para a praia ali tão próxima, que, descalça, andou pela areia, onde o estrondo do mar lhe convidava, parecendo a única coisa, no meio de tudo aquilo, que afinal fazia algum sentido.

E com ele, mãos no cabelo, ao recomeço.

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