27 de jul de 2009

:: NREM ::

O texto que segue é uma sequência para "REM" e "No Delta". Se ainda não os leu, convido a fazê-lo, nessa ordem, antes de continuar.
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Virou-se novamente para a direita e percebeu uma outra estante enorme; poderia jurar que não estava ali um segundo antes. A velha, atarefadíssima com alguma coisa que a pequena visitante já nem mesmo tentava entender, permitiu-se olhar para o lado e dar um breve sorriso. Ainda que dissesse que, de onde estava, a menina jamais conseguiria alcançar o que queria, de nada iria adiantar: os jovens precisam aprender por si mesmos, era o que sempre dizia, ainda que talvez nem se lembrassem do que haviam aprendido quando, pela manhã, lhes acordassem os cheiros de café e de bacon torrado.


A menina passeou com os olhos por todos os potes, passeou com os dedos por tampas sem fim, por teias de aranha tão firmes quanto cordas, por uma poeira que se recusava a ceder lugar para qualquer toque que lhes desafiasse.

- Se são sonhos o que esses potes contêm, – perguntou, enfim – por que estão assim tão fechados?

- Porque são sonhos que ninguém quer sonhar, criança. – respondeu em seu velho tom matriarcal – ou porque já os sonharam, ou porque nunca encontraram seus sonhadores.

O rosto da menina não se desfez das interrogações.

- Foram sonhados mas continuam aqui?

- Porque não os sonharam até o fim. Porque os esqueceram. Então ficam ai, esperando, mesmo que nunca mais conheçam outro destino.


A velha franziu o cenho, mais por cansaço que por enfado, mas a menina preferiu guardar sua outra pergunta para quando as rugas naquela testa sem idade se tivessem dissipado ao menos um pouco.

O cheiro de chuva que vinha da janela enfim diminuíra. Um imenso relógio de chão agora parecia dominar toda uma parede da loja, e mais uma vez a menina teve a certeza de que, um minuto antes, não estava ali. Mas, afinal, era como tudo se passava naquele lugar: repentinamente, sem lógica, mas conquistando coerência graças à simples preguiça, da consciência, de explicar o que acontecia.

Mas, senhora, - não resistiu, enfim – porque é que guarda todos aqui, empoeirando e amontoando-se em prateleiras e mais prateleiras? Por que a senhora não lança um tanto deles fora, limpa o mofo, desfaz as teias de aranha?

A velha, como sempre, apenas sorriu e apoiou-se em sua vassoura, que espreguiçou seus fiapos de piaçava dourada pelo chão de madeira.

- Porque um sonho não se joga fora, criança. - Respondeu - Ele pode ficar guardado e esquecido por muito tempo; mas nunca pode estar onde não se possa mais sonhar.

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20 de jul de 2009

:: Highway ::

Ele ria, como há tempos não ria.

Era final de tarde, abafado, e ainda que o ar-condicionado estivesse finalmente consertado, deixou-o desligado e abriu ao máximo as janelas: deixou o ar inundar o carro, deixou o vento levar consigo os papéis que se amontoavam sobre o banco do carona, nos vãos das portas, sobre o painel: anúncios de imóveis a preços imperdíveis, de automóveis seminovos com garantia de fábrica, de ofertas de um supermercado que prometia cobrir quaisquer outras se ele aparecesse em uma das mais de 140 lojas espalhadas por todo o estado e sempre com um endereço pertinho de você. Papéis que o convocavam para um café com alguém que ele deveria agradar ao máximo, porque tudo dependia disso; papéis que o informavam que era o momento de fazer uma nova aplicação com o dinheiro que enfim seria liberado daquela outra.

Voavam janela afora as pesquisas que encomendara para encontrar a melhor região para abrir sua nova filial, e alguns currículos que amigos que não via há anos, mas que de repente lhe telefonaram como se tivessem jantado juntos ontem, insistiram em colocar em suas mãos numa visita desprentensiosa naquela mesma manhã. Voou uma pequena lista de compras, que acusava o final do estoque de macarrão instantâneo, voou a lista de resoluções às quais chegaram os outros doze condôminos e que, a partir de agora, teriam que ser seguidas à risca sob pena de multa ou de restrição do uso das áreas comuns.

Ria como há tempos não ria. Enquanto cortava a estrada sem pensar em nada mais, ouviu Bob Seger começar a cantar sua Against The Wind a plenos pulmões.

Pensara por tempos demais em consequências demais, apenas para ver que nenhuma delas se mostrou verdadeira. Procurou demais, por tempo demais, sem ao menos saber ao certo o que é que procurava. Encontrou pessoas que nunca veio a saber quem eram, aceitou sonhos que nunca foram os que sonhou, traçou metas que, mesmo alcançadas, apenas serviam para lhe manter cada vez mais preso ao lugar onde estava.

Então, naquele dia, atrás do mesmo volante onde sempre podia ser visto entre as 18h e, às vezes, 20h, resolveu não pegar a saida 32 como sempre fazia. Foi quando veio o riso, aumentando a cada metro desses quilômetros desconhecidos.

Ao lado, em alta velocidade, outdoors passavam espantados: já não faziam ouvir seus apelos, suas promessas, suas garantias de felicidade condicionada. Passavam carros, e eram cada vez menos. Passavam prédios, e eram cada vez menos. Passavam carros, e menos, e esquinas, e menos. Até que, com toda a glória que a pressa lhe tentava roubar, havia apenas o céu, num escuro infinito, e a estrada que se estendia para muito além do que a razão queria conceber.

E ele seguia por ela, entre risos e lágrimas, como há tempos não se sentia.

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Publicado por Renato Alt




13 de jul de 2009

:: Consonante ::

Ele não compreendia o motivo de tanta consternação.
Escolhera aquela noite para ficar só. Só.


Quiseram saber qual era o problema. Se algo o incomodava. Se alguns dos pensamentos que tempos atrás dividira com eles, os amigos, coisa da qual agora se arrependia, resolvera voltar a assombrá-lo. Perguntaram se aquele velho assunto pendente, que supostamente se resolvera, reaparecera mostrando nova cara, nova roupagem, outro nome.

Mas não, nenhuma dessas coisas.

Quiseram saber se era por causa da chuva, e antes que pudesse responder, alguém se adiantara dizendo que também sentia-se assim nos dias cinzentos, e que neles não tinha vontade alguma de sair de casa, e que por isso o entendia como ninguém, sim senhor.

Mas ele, ao contrário, gostava de chuva.


Quiseram saber se o problema era dinheiro, e disseram que isso afinal não era problema algum, porque faziam questão de pagar-lhe a pizza, ou a bebida, ou a boate ou o que quer que fosse que o convencessem a fazer. Ou, ainda, a fim de não gastarem nada, talvez o melhor fosse alugarem um dvd qualquer e irem todos para a casa de alguém, quem sabe a dele mesmo, e ficarem por lá enquanto a noite durasse, e de repente, se o dia trouxesse o sol consigo, poderiam seguir para a praia e ficar sobre a areia até que, de tão queimados, ninguém pudesse dizer quem era quem.

E tudo isso lhe parecia otimo. Mas não para hoje.

Deram de ombros, todos, um pouco contrariados, um tanto pensativos, dizendo coisas com os olhares que ele, mesmo de longe, decifrava facilmente: aquela anuência mútua, cúmplice, quanto ao esforço que fizeram pelo amigo, que não deu em nada, e que condenava-o à própria tristeza por sua livre e espontânea vontade. Assim, como tantos em um sábado à noite, lançaram-se porta afora, ansiosos por trocar sua lucidez por alguns shots de José Cuervo.

Mas ele, ao contrário do que julgavam, não estava triste.


Não sentia-se mal. Não brigara com ninguém, nem mesmo consigo. Não pensava em qualquer atitude dramática, como, sim, já pensara, tempos atrás. Apenas queria estar só. Já escolhera algumas músicas e abrira, há quarenta minutos, um Malpuesto 2005 e o deixara sobre a mesa. Pensou em rever algum dos seus filmes preferidos. Pensou, admite, que talvez quisesse junto consigo, apenas, ela, mas não a chamara: sabia que recusaria, porque é como ela joga, e estava por demais cansado para fingir um convite despretensioso, demasiado cansado para fingir-se indiferente diante da recusa, demasiado cansado para mostrar-lhe, de novo, o quanto era claro que ambos ansiavam um pelo outro e o quanto aquilo tudo era uma imensa perda de tempo, cansado de fingir ser forte para continuar levando as coisas como se tudo fosse etéreo e desimportante.

Escolhera reler à luz da lareira, escolhera deixar o telefone fora do gancho, escolhera uma noite sem luzes demais, sorrisos demais, simpatia demais, conversas demais, sem novas pessoas a quem se apresentar que lhe viessem pedir suas credenciais de inteligência, de bom-humor ou de status social.

Nessa noite, preferia não ser ninguém; e era como a queria. Só.

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6 de jul de 2009

:: Minuetto ::

Ela, ontem.

Eu a esperei com o sorriso pronto, com a casa arrumada e a mesa posta, com a lareira acesa e o vinho aberto para respirar.

Eu a esperei como era de se esperar: riso pronto para qualquer gracejo, olhar pronto para qualquer olhar, beijo pronto para qualquer suspiro. Esperei contando os minutos, ainda que saboreasse a espera, enquanto pontuava expectativas com umas tantas músicas antigas, das que só ouvimos quando pensamos que ninguém nos ouve também: lentas, melosas, cantando noites de luar, cantando verões ensolarados e promessas de amor eterno.

A chuva veio como que por encomenda; o frio, como oferta. As horas arrastavam-se teimosas, cruéis, olhando-me de dentro do relógio com um riso sádico, impiedoso. Para elas, ofereci de volta meu sorriso, declarando minha imutável decisão de permanecer como estava, satisfeito com o dia que inevitavelmente se entregaria à noite, paciente em minha impaciência.

Procurei nas gavetas as fotografias que prometera mostrar, lugares onde estive e onde ela pretendia ir, nas férias que vinha adiando há mais tempo do que conseguia admitir. Separei impressões para dividir, procurei lembranças para confidenciar, cerquei-me de seguranças e pretextos, de certezas e movimentos.

Resgatando-me das profundezas do pensamento, a campainha: chega ela, com o sorriso que torna todo o resto desimportante, roubando-me o chão a cada passo, roubando-me a lucidez com o olhar.

Então, à noite.

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