20 de jul de 2009

:: Highway ::

Ele ria, como há tempos não ria.

Era final de tarde, abafado, e ainda que o ar-condicionado estivesse finalmente consertado, deixou-o desligado e abriu ao máximo as janelas: deixou o ar inundar o carro, deixou o vento levar consigo os papéis que se amontoavam sobre o banco do carona, nos vãos das portas, sobre o painel: anúncios de imóveis a preços imperdíveis, de automóveis seminovos com garantia de fábrica, de ofertas de um supermercado que prometia cobrir quaisquer outras se ele aparecesse em uma das mais de 140 lojas espalhadas por todo o estado e sempre com um endereço pertinho de você. Papéis que o convocavam para um café com alguém que ele deveria agradar ao máximo, porque tudo dependia disso; papéis que o informavam que era o momento de fazer uma nova aplicação com o dinheiro que enfim seria liberado daquela outra.

Voavam janela afora as pesquisas que encomendara para encontrar a melhor região para abrir sua nova filial, e alguns currículos que amigos que não via há anos, mas que de repente lhe telefonaram como se tivessem jantado juntos ontem, insistiram em colocar em suas mãos numa visita desprentensiosa naquela mesma manhã. Voou uma pequena lista de compras, que acusava o final do estoque de macarrão instantâneo, voou a lista de resoluções às quais chegaram os outros doze condôminos e que, a partir de agora, teriam que ser seguidas à risca sob pena de multa ou de restrição do uso das áreas comuns.

Ria como há tempos não ria. Enquanto cortava a estrada sem pensar em nada mais, ouviu Bob Seger começar a cantar sua Against The Wind a plenos pulmões.

Pensara por tempos demais em consequências demais, apenas para ver que nenhuma delas se mostrou verdadeira. Procurou demais, por tempo demais, sem ao menos saber ao certo o que é que procurava. Encontrou pessoas que nunca veio a saber quem eram, aceitou sonhos que nunca foram os que sonhou, traçou metas que, mesmo alcançadas, apenas serviam para lhe manter cada vez mais preso ao lugar onde estava.

Então, naquele dia, atrás do mesmo volante onde sempre podia ser visto entre as 18h e, às vezes, 20h, resolveu não pegar a saida 32 como sempre fazia. Foi quando veio o riso, aumentando a cada metro desses quilômetros desconhecidos.

Ao lado, em alta velocidade, outdoors passavam espantados: já não faziam ouvir seus apelos, suas promessas, suas garantias de felicidade condicionada. Passavam carros, e eram cada vez menos. Passavam prédios, e eram cada vez menos. Passavam carros, e menos, e esquinas, e menos. Até que, com toda a glória que a pressa lhe tentava roubar, havia apenas o céu, num escuro infinito, e a estrada que se estendia para muito além do que a razão queria conceber.

E ele seguia por ela, entre risos e lágrimas, como há tempos não se sentia.

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Publicado por Renato Alt




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