13 de jul de 2009

:: Consonante ::

Ele não compreendia o motivo de tanta consternação.
Escolhera aquela noite para ficar só. Só.


Quiseram saber qual era o problema. Se algo o incomodava. Se alguns dos pensamentos que tempos atrás dividira com eles, os amigos, coisa da qual agora se arrependia, resolvera voltar a assombrá-lo. Perguntaram se aquele velho assunto pendente, que supostamente se resolvera, reaparecera mostrando nova cara, nova roupagem, outro nome.

Mas não, nenhuma dessas coisas.

Quiseram saber se era por causa da chuva, e antes que pudesse responder, alguém se adiantara dizendo que também sentia-se assim nos dias cinzentos, e que neles não tinha vontade alguma de sair de casa, e que por isso o entendia como ninguém, sim senhor.

Mas ele, ao contrário, gostava de chuva.


Quiseram saber se o problema era dinheiro, e disseram que isso afinal não era problema algum, porque faziam questão de pagar-lhe a pizza, ou a bebida, ou a boate ou o que quer que fosse que o convencessem a fazer. Ou, ainda, a fim de não gastarem nada, talvez o melhor fosse alugarem um dvd qualquer e irem todos para a casa de alguém, quem sabe a dele mesmo, e ficarem por lá enquanto a noite durasse, e de repente, se o dia trouxesse o sol consigo, poderiam seguir para a praia e ficar sobre a areia até que, de tão queimados, ninguém pudesse dizer quem era quem.

E tudo isso lhe parecia otimo. Mas não para hoje.

Deram de ombros, todos, um pouco contrariados, um tanto pensativos, dizendo coisas com os olhares que ele, mesmo de longe, decifrava facilmente: aquela anuência mútua, cúmplice, quanto ao esforço que fizeram pelo amigo, que não deu em nada, e que condenava-o à própria tristeza por sua livre e espontânea vontade. Assim, como tantos em um sábado à noite, lançaram-se porta afora, ansiosos por trocar sua lucidez por alguns shots de José Cuervo.

Mas ele, ao contrário do que julgavam, não estava triste.


Não sentia-se mal. Não brigara com ninguém, nem mesmo consigo. Não pensava em qualquer atitude dramática, como, sim, já pensara, tempos atrás. Apenas queria estar só. Já escolhera algumas músicas e abrira, há quarenta minutos, um Malpuesto 2005 e o deixara sobre a mesa. Pensou em rever algum dos seus filmes preferidos. Pensou, admite, que talvez quisesse junto consigo, apenas, ela, mas não a chamara: sabia que recusaria, porque é como ela joga, e estava por demais cansado para fingir um convite despretensioso, demasiado cansado para fingir-se indiferente diante da recusa, demasiado cansado para mostrar-lhe, de novo, o quanto era claro que ambos ansiavam um pelo outro e o quanto aquilo tudo era uma imensa perda de tempo, cansado de fingir ser forte para continuar levando as coisas como se tudo fosse etéreo e desimportante.

Escolhera reler à luz da lareira, escolhera deixar o telefone fora do gancho, escolhera uma noite sem luzes demais, sorrisos demais, simpatia demais, conversas demais, sem novas pessoas a quem se apresentar que lhe viessem pedir suas credenciais de inteligência, de bom-humor ou de status social.

Nessa noite, preferia não ser ninguém; e era como a queria. Só.

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