6 de jul de 2009

:: Minuetto ::

Ela, ontem.

Eu a esperei com o sorriso pronto, com a casa arrumada e a mesa posta, com a lareira acesa e o vinho aberto para respirar.

Eu a esperei como era de se esperar: riso pronto para qualquer gracejo, olhar pronto para qualquer olhar, beijo pronto para qualquer suspiro. Esperei contando os minutos, ainda que saboreasse a espera, enquanto pontuava expectativas com umas tantas músicas antigas, das que só ouvimos quando pensamos que ninguém nos ouve também: lentas, melosas, cantando noites de luar, cantando verões ensolarados e promessas de amor eterno.

A chuva veio como que por encomenda; o frio, como oferta. As horas arrastavam-se teimosas, cruéis, olhando-me de dentro do relógio com um riso sádico, impiedoso. Para elas, ofereci de volta meu sorriso, declarando minha imutável decisão de permanecer como estava, satisfeito com o dia que inevitavelmente se entregaria à noite, paciente em minha impaciência.

Procurei nas gavetas as fotografias que prometera mostrar, lugares onde estive e onde ela pretendia ir, nas férias que vinha adiando há mais tempo do que conseguia admitir. Separei impressões para dividir, procurei lembranças para confidenciar, cerquei-me de seguranças e pretextos, de certezas e movimentos.

Resgatando-me das profundezas do pensamento, a campainha: chega ela, com o sorriso que torna todo o resto desimportante, roubando-me o chão a cada passo, roubando-me a lucidez com o olhar.

Então, à noite.

•••


Nenhum comentário: