31 de ago de 2009

:: Hiato ::

Quando descobriram onde estava, permaneceram do outro lado da rua durante quase todo o dia: sabiam que, se os visse, nem ao menos chegaria até a porta. As referências pareciam não deixar dúvida de que era ali: uma rua sem saída, cujo nome perdera-se há tempos e à qual todos referiam-se como "a rua de trás", onde três carros abandonados entregavam-se, resignados, à ferrugem e à urina olorosa de gatos vadios, onde ficava a porta de serviço de um restaurante de quinta categoria, que volta e meia se abria para que um cozinheiro imundo tirasse de dentro dela imensos sacos pretos de lixo, que jogava na calçada sem qualquer constrangimento.

A pequena porta do prédio onde supunham que ele agora morava estava escondida pelas sombras, como se a própria rua, envergonhada de si mesma, tivesse queimado de propósito todas as luzes que deveriam iluminá-la.

E finalmente viram-no chegar: estava, claro, diferente, mas não havia qualquer dúvida. Parecia magro, sem dúvida perdera cabelo, e mesmo à distância puderam ver que usava óculos pesados demais para seu rosto.

Contiveram as lágrimas. Desta vez, ele não soube que estavam vindo. Desta vez, ele estava mesmo ali, a não mais do que cem infindáveis metros de distância.

Era preciso que esperassem entrar, era preciso que vissem a luz do segundo andar acesa, indicando que estava dentro de casa. Então chegariam à porta do prédio e pediriam que um vizinho qualquer a abrisse, dizendo que queriam fazer uma surpresa ou então inventando que o interfone não funcionava, para que ele tivesse que abrir a porta ao ouvir que alguém estava batendo, e eles poderiam dizer que sabiam que estava ali.

Então conversariam, diriam o que deveria ter sido dito oito anos antes, diriam que ninguém o culpava por nada e falariam da frustração de descobrir, a cada endereço visitado, que ele acabara de mudar-se deixando tudo para trás.

Terminaram o café e deixaram os copos vazios no banco do carro. Entreolharam-se por um instante e, com um aceno de cabeça, destrancaram a porta para sair.


...

Publicado por Renato Alt


24 de ago de 2009

:: O Passo ::

Eram sessenta e quatro. Ele contara inúmeras vezes. Eram quantos degraus o separavam da porta da casa dela, no segundo andar, ou primeiro, se não contasse com o restaurante chinês que ocupava o térreo e que ofertava todos os dias, através da janela, o cheiro gorduroso dos rolinhos primavera e os suspiros pelas sortes industrializadas recém-saídas de dentro dos biscoitos.

Ele subia quase sempre até a metade, onde suas pernas começavam a falhar, onde as palavras ensaiadas costumavam descer correndo de volta à rua, onde os motivos que o levaram até ali pareciam fugidios e infundados.

Mas então lembra do quando custara descobrir o endereço, lembra de quantas vezes precisou perguntar às pessoas como quem pergunta sobre uma aparição; afinal, no início, ela pouco mais fora do que isso: uma garota que apareceu de repente, por entre a fumaça, naquela boate perdida no meio de uma noite que parecia morta antes mesmo de nascer. Eles se olharam sem trocar palavra, porque nenhuma delas apresentou-se, e estiveram juntos através de algumas músicas e de algumas bebidas, até que, tão de repente quanto veio, ela virou-se e deixou-se perder em meio à penumbra, para nunca mais ser encontrada.

Ele a esperou até a hora em que o bar fechou, mas não a viu sair; descobriu, então, que ninguém a vira ou mesmo tinha idéia de quem poderia ser. E assim tornou-se uma obsessão sem nome, ainda que de olhos, cabelos e perfume inesquecíveis.

Dali, podia ver a grande porta de correr, em metal, que deveria ser o lugar onde ela está. Tentou trazer de volta à memória algumas frases inteligentes, algo de espirituoso que pudesse quebrar o gelo e garantir que a conversa não se limitasse à porta e alcançasse, ao menos, o sofá.

Mas lhe veio o medo e a certeza de que, se quisesse, ela poderia ter se deixado encontrar, teria lhe dado o telefone ou ao menos um sorriso antes de desaparecer.

E, com um suspiro, desceu de volta à rua, conservando-a perfeita como a tinha na memória.

...

Publicado por Renato Alt

17 de ago de 2009

:: Ensaio ::

Sim, eu sei.

Talvez eu não tenha a aparência que você desejava quando desenhava em traços que só a imaginação ousava completar, naquelas tardes em que, deitada em sua cama, sob a brisa da janela aberta, abraçava o diário e suspirava, em um verão que não pode ter sido há mais de dez anos.

Talvez eu não possa embarcar consigo, ao menos por enquanto, para o outro lado do oceano, para desbravar as paragens daqueles que chegaram às nossas próprias mesmo antes de nós. Talvez eu não saiba exatamente o que dizer para tirar-lhe, de uma só vez, dessa tristeza sem fim que parece lhe corroer a alma, roubar-lhe o sorriso, pesar no coração.

Mas talvez, se você permitir, eu possa levar-lhe a conhecer terras distantes, além daquelas às quais nos podem levar navios ou aviões, e a ver coisas que você não poderia enxergar ainda que estivesse com os olhos tão abertos quanto conseguisse; mais ainda, há de contemplá-las melhor se os mantiver fechados.

Assim talvez eu possa, durante um café, descrever-me para além daquilo que você vê e mostrar-me da forma como sou, tão diferente desta com a qual a natureza, em sua pressa, escolheu me apresentar.

E então, quem sabe, depois de alguns risos e de algumas surpresas, de palavras descomprometidas e mesmo de breves e constrangedores silêncios, onde os olhos nos salvam dizendo tudo o que não conseguimos, eu possa apresentá-la a si mesma, e uma vez que você saiba quem é, talvez entenda porque é que me toma os pensamentos, os sonhos e a lucidez, que sempre foram seus e que eu mantinha sob meus cuidados até a hora de lhos entregar.

Talvez, agora.

...

Publicado por Renato Alt


10 de ago de 2009

:: Senha ::

Desceu uns trinta degraus: jamais desconfiara que ali havia um bar ou o que quer que fosse e, ao que parece, essa era a intenção do lugar. A pesada porta escura escondia um ambiente soturno, onde veludo que um dia foi vermelho revestia todas as paredes, e onde um carpete que, quem sabe, dividira essa mesma cor, agora estendia-se em um marrom cansado até uns vinte metros à frente. Eram poucas as mesas, quinze ou vinte no máximo, e um balcão de madeira entalhada ocupava toda a parede lateral. Um minúsculo palco redondo sustentava uma diva de outra época, em vestido de noite e voz curtida de cigarro, que cantava He Stopped Loving Her Today ao lado de um enorme violoncelista negro, cujo rosto era impossível enxergar em meio à fumaça olorosa dos charutos.

Preguiçosos, alguns rostos viraram para olhar o estranho que entrava, não tão assustado quanto apreensivo. Por detrás do balcão de bebidas, um atendente alto, acima do peso, careca e de barba espessa, apresentava-se estranhamente bem vestido: calça preta, camisa branca, gravata borboleta, sorriso. Atrás de si, garrafas multicoloridas exibiam cores de um arco-íris ébrio: azul, branco, vermelho e marrons de várias idades, envelhecidos em barris de carvalho.

- E então, o que é que vai ser? - Ele perguntou.

Na pequena mesa ao lado, uma mulher falava sozinha, com um cigarro queimado pela metade preso entre os dedos. À sua frente, um copo de gelo e provavelmente uísque, ainda que, agora, já fosse quase todo água. Dentre as palavras que murmurava, ouvia-se, perdidos, uns “eu sabia” e “aquele idiota”. O sofá onde sentava estava manchado, sujo como tudo o que os olhos alcançavam, e pequenos buracos feitos por pontas de cigarros brigavam, entre si, por atenção.

- E então, o que é que vai ser?

Banquetas enfileiravam-se em todo o contorno do balcão, e um homem de terno e gravata frouxa que parecia estar ali há muito tempo levantou a cabeça; do meio de um rosto oleoso e de um cabelo engordurado que lhe caía sobre a testa, sorriu com dentes amarelados e olhar ausente, deixando os olhos escondidos por trás de enormes óculos de tartaruga. Tossiu uma tosse engasgada e comprida pelo que pareceu uma hora, e tomou um gole de uma bebida impossível de identificar.

- E então, o que é que vai ser?

Um casal hispânico discutia em outra das mesas: ela, manhosa, de cara fechada, enquanto ele tentava alcançar seu rosto com as mãos, numa expressão de subserviência capaz de constranger um cão que esperasse por sobras à beirada da mesa. Logo ao lado, um homem olhava para um celular que, percebe agora, tocava incessantemente desde que entrara. Seu olhar é vago, distante, lacrimoso; seu fumar é sôfrego, queimando um cigarro quase inteiro em uma tragada só. Atrás dele, outra alma penada sai cambaleante do que provavelmente era o banheiro, tentando, desajeitada, fechar a braguilha.

- E então, o que é que vai ser?

Ele sentou em uma das banquetas e olhou com nojo para um pires de amendoins sebosos, que pareciam estar ali desde o início dos tempos.

- Vodca e club soda. –disse, por fim.

Todos os músculos em seu corpo pediam que fosse embora. Seu espírito o impelia para fora. Mas desde que chegara, a porta no outro extremo do bar, de madeira e metal, que tentava esconder-se dos olhares curiosos por detrás da fumaça e da embriaguês, chamava-o com força irresistível.

E ele tentava enganar-se, engolindo de uma vez o destilado, dizendo que iria embora sem procurar saber o que havia por detrás dela.

Mas permaneceu ali, olhar fixo, sacudindo as pernas.

...

Publicado por Renato Alt


3 de ago de 2009

:: Adendo ::

"29 de agosto de 1854

Não são muitas as horas do dia que separo para mim. Hoje, talvez pela proximidade do final de semana e porque eu sinta alguma necessidade de lembrar do que isso costumava significar, talvez por causa da chuva que mais uma vez parece disposta a lavar da face da terra toda a criação de Deus, resolvi ficar naquela que se tornou minha casa por mais tempo do que eu jamais pretendi, e escrever-lhe mesmo antes de receber resposta sua. Então estou aqui, sobre algumas peles que consegui trocar com viajantes que passaram há coisa de uma semana, tão confortável quanto se pode estar em um lugar que até o mais experiente dos viajantes tem preguiça de mencionar. Escrevo à luz de um novo e melhor lampião que enfim consegui comprar, depois de muito falar com o merceeiro, que não estava nada disposto a desfazer-se dele; mas tal foi a minha insistência – por necessidade, e não comodismo – que ele enfim condoeu-se e, aproveitando a viagem que empreenderia até uma cidade grande em mais alguns dias, onde poderia conseguir algo bem melhor, aceitou vendê-lo.

Deitado comigo está o companheiro que conquistei, ou talvez seja o contrário, depois de algumas boas semanas de pequenas iguarias e de palavras mansas: o velho lobo a respeito do qual lhe falei. Agora resolveu, enfim, parar de rondar a casa para reclamar uma parte dela, e por vezes me parece até que o inquilino sou eu. Sobre o fogo está uma panela com água, onde logo colocarei algumas folhas para um chá. Ainda há pouco dividimos, eu e ele, um jantar de feijões e bacon, ainda que ele tenha preferido concentrar-se apenas nesse segundo petisco.

Quanto ao trabalho aqui, não posso reclamar; ainda que, em meus planos antes de vir, imaginasse que à esta altura as coisas estariam mais adiantadas. Mesmo assim, sigo confiante: a escavação vem se mostrando produtiva, e poucas tem sido as vezes em que preciso recorrer à dinamite para avançar. Isso é essencial para evitar chamar atenção indevida. O lugar onde moro, é claro, já não é mais segredo para ninguém na pequena cidade próxima, e pretender mantê-lo nessa condição, além de impossível, provavelmente causaria mais estranheza.

Me angustia não saber ao certo como estão as coisas por aí. Conheco-a, e sei que tudo o que me diz pretende acalmar-me aqui, e que assim as novidades que me conta possivelmente me alcançam já filtradas. Mas folgo na confiança do seu pai, e tenho fé nas orações que sei que fazem por mim; mas sei, também, o quanto não convém a você, tão jovem, estar sozinha em um cidade onde, para falar da vida dos outros, ninguém tem qualquer pudor. Me angustia imaginar que seu pai, andando pelas ruas, precise lidar com olhares maldosos e comentários à saida. No entanto, descanso ao saber que estou onde deveria estar; e sei disso por causa da confiança de todos vocês em mim. Folgo na certeza de que esta minha busca, que empreendo por nós, não é em vão, e será o argumento definitivo para todos aqueles que preferiram usar do próprio tempo para falar de algo que, afinal, não lhes diz qualquer respeito.

Não lembro se comentei, mas ainda que o tenha feito, falo de novo: arrancou-me risos seu presente de tinta e papel. Entendi o recado. E saiba, também, que ainda que eu não coloque tudo em cartas como gostaria de fazer – afinal, nem mesmo sei o quanto posso confiar que serão lidas apenas por você, até chegarem às suas mãos – o que quer que seja que esteja eu fazendo aqui, faço-o por nós: meus pensamentos estão em você, a todo momento.

E, ainda que eu não esteja ai, saiba que estou, sempre.

Com o amor que não conhece distâncias,
R."

...

Publicado por Renato Alt