3 de ago de 2009

:: Adendo ::

"29 de agosto de 1854

Não são muitas as horas do dia que separo para mim. Hoje, talvez pela proximidade do final de semana e porque eu sinta alguma necessidade de lembrar do que isso costumava significar, talvez por causa da chuva que mais uma vez parece disposta a lavar da face da terra toda a criação de Deus, resolvi ficar naquela que se tornou minha casa por mais tempo do que eu jamais pretendi, e escrever-lhe mesmo antes de receber resposta sua. Então estou aqui, sobre algumas peles que consegui trocar com viajantes que passaram há coisa de uma semana, tão confortável quanto se pode estar em um lugar que até o mais experiente dos viajantes tem preguiça de mencionar. Escrevo à luz de um novo e melhor lampião que enfim consegui comprar, depois de muito falar com o merceeiro, que não estava nada disposto a desfazer-se dele; mas tal foi a minha insistência – por necessidade, e não comodismo – que ele enfim condoeu-se e, aproveitando a viagem que empreenderia até uma cidade grande em mais alguns dias, onde poderia conseguir algo bem melhor, aceitou vendê-lo.

Deitado comigo está o companheiro que conquistei, ou talvez seja o contrário, depois de algumas boas semanas de pequenas iguarias e de palavras mansas: o velho lobo a respeito do qual lhe falei. Agora resolveu, enfim, parar de rondar a casa para reclamar uma parte dela, e por vezes me parece até que o inquilino sou eu. Sobre o fogo está uma panela com água, onde logo colocarei algumas folhas para um chá. Ainda há pouco dividimos, eu e ele, um jantar de feijões e bacon, ainda que ele tenha preferido concentrar-se apenas nesse segundo petisco.

Quanto ao trabalho aqui, não posso reclamar; ainda que, em meus planos antes de vir, imaginasse que à esta altura as coisas estariam mais adiantadas. Mesmo assim, sigo confiante: a escavação vem se mostrando produtiva, e poucas tem sido as vezes em que preciso recorrer à dinamite para avançar. Isso é essencial para evitar chamar atenção indevida. O lugar onde moro, é claro, já não é mais segredo para ninguém na pequena cidade próxima, e pretender mantê-lo nessa condição, além de impossível, provavelmente causaria mais estranheza.

Me angustia não saber ao certo como estão as coisas por aí. Conheco-a, e sei que tudo o que me diz pretende acalmar-me aqui, e que assim as novidades que me conta possivelmente me alcançam já filtradas. Mas folgo na confiança do seu pai, e tenho fé nas orações que sei que fazem por mim; mas sei, também, o quanto não convém a você, tão jovem, estar sozinha em um cidade onde, para falar da vida dos outros, ninguém tem qualquer pudor. Me angustia imaginar que seu pai, andando pelas ruas, precise lidar com olhares maldosos e comentários à saida. No entanto, descanso ao saber que estou onde deveria estar; e sei disso por causa da confiança de todos vocês em mim. Folgo na certeza de que esta minha busca, que empreendo por nós, não é em vão, e será o argumento definitivo para todos aqueles que preferiram usar do próprio tempo para falar de algo que, afinal, não lhes diz qualquer respeito.

Não lembro se comentei, mas ainda que o tenha feito, falo de novo: arrancou-me risos seu presente de tinta e papel. Entendi o recado. E saiba, também, que ainda que eu não coloque tudo em cartas como gostaria de fazer – afinal, nem mesmo sei o quanto posso confiar que serão lidas apenas por você, até chegarem às suas mãos – o que quer que seja que esteja eu fazendo aqui, faço-o por nós: meus pensamentos estão em você, a todo momento.

E, ainda que eu não esteja ai, saiba que estou, sempre.

Com o amor que não conhece distâncias,
R."

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Publicado por Renato Alt


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