17 de ago de 2009

:: Ensaio ::

Sim, eu sei.

Talvez eu não tenha a aparência que você desejava quando desenhava em traços que só a imaginação ousava completar, naquelas tardes em que, deitada em sua cama, sob a brisa da janela aberta, abraçava o diário e suspirava, em um verão que não pode ter sido há mais de dez anos.

Talvez eu não possa embarcar consigo, ao menos por enquanto, para o outro lado do oceano, para desbravar as paragens daqueles que chegaram às nossas próprias mesmo antes de nós. Talvez eu não saiba exatamente o que dizer para tirar-lhe, de uma só vez, dessa tristeza sem fim que parece lhe corroer a alma, roubar-lhe o sorriso, pesar no coração.

Mas talvez, se você permitir, eu possa levar-lhe a conhecer terras distantes, além daquelas às quais nos podem levar navios ou aviões, e a ver coisas que você não poderia enxergar ainda que estivesse com os olhos tão abertos quanto conseguisse; mais ainda, há de contemplá-las melhor se os mantiver fechados.

Assim talvez eu possa, durante um café, descrever-me para além daquilo que você vê e mostrar-me da forma como sou, tão diferente desta com a qual a natureza, em sua pressa, escolheu me apresentar.

E então, quem sabe, depois de alguns risos e de algumas surpresas, de palavras descomprometidas e mesmo de breves e constrangedores silêncios, onde os olhos nos salvam dizendo tudo o que não conseguimos, eu possa apresentá-la a si mesma, e uma vez que você saiba quem é, talvez entenda porque é que me toma os pensamentos, os sonhos e a lucidez, que sempre foram seus e que eu mantinha sob meus cuidados até a hora de lhos entregar.

Talvez, agora.

...

Publicado por Renato Alt


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