24 de ago de 2009

:: O Passo ::

Eram sessenta e quatro. Ele contara inúmeras vezes. Eram quantos degraus o separavam da porta da casa dela, no segundo andar, ou primeiro, se não contasse com o restaurante chinês que ocupava o térreo e que ofertava todos os dias, através da janela, o cheiro gorduroso dos rolinhos primavera e os suspiros pelas sortes industrializadas recém-saídas de dentro dos biscoitos.

Ele subia quase sempre até a metade, onde suas pernas começavam a falhar, onde as palavras ensaiadas costumavam descer correndo de volta à rua, onde os motivos que o levaram até ali pareciam fugidios e infundados.

Mas então lembra do quando custara descobrir o endereço, lembra de quantas vezes precisou perguntar às pessoas como quem pergunta sobre uma aparição; afinal, no início, ela pouco mais fora do que isso: uma garota que apareceu de repente, por entre a fumaça, naquela boate perdida no meio de uma noite que parecia morta antes mesmo de nascer. Eles se olharam sem trocar palavra, porque nenhuma delas apresentou-se, e estiveram juntos através de algumas músicas e de algumas bebidas, até que, tão de repente quanto veio, ela virou-se e deixou-se perder em meio à penumbra, para nunca mais ser encontrada.

Ele a esperou até a hora em que o bar fechou, mas não a viu sair; descobriu, então, que ninguém a vira ou mesmo tinha idéia de quem poderia ser. E assim tornou-se uma obsessão sem nome, ainda que de olhos, cabelos e perfume inesquecíveis.

Dali, podia ver a grande porta de correr, em metal, que deveria ser o lugar onde ela está. Tentou trazer de volta à memória algumas frases inteligentes, algo de espirituoso que pudesse quebrar o gelo e garantir que a conversa não se limitasse à porta e alcançasse, ao menos, o sofá.

Mas lhe veio o medo e a certeza de que, se quisesse, ela poderia ter se deixado encontrar, teria lhe dado o telefone ou ao menos um sorriso antes de desaparecer.

E, com um suspiro, desceu de volta à rua, conservando-a perfeita como a tinha na memória.

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Publicado por Renato Alt

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