10 de ago de 2009

:: Senha ::

Desceu uns trinta degraus: jamais desconfiara que ali havia um bar ou o que quer que fosse e, ao que parece, essa era a intenção do lugar. A pesada porta escura escondia um ambiente soturno, onde veludo que um dia foi vermelho revestia todas as paredes, e onde um carpete que, quem sabe, dividira essa mesma cor, agora estendia-se em um marrom cansado até uns vinte metros à frente. Eram poucas as mesas, quinze ou vinte no máximo, e um balcão de madeira entalhada ocupava toda a parede lateral. Um minúsculo palco redondo sustentava uma diva de outra época, em vestido de noite e voz curtida de cigarro, que cantava He Stopped Loving Her Today ao lado de um enorme violoncelista negro, cujo rosto era impossível enxergar em meio à fumaça olorosa dos charutos.

Preguiçosos, alguns rostos viraram para olhar o estranho que entrava, não tão assustado quanto apreensivo. Por detrás do balcão de bebidas, um atendente alto, acima do peso, careca e de barba espessa, apresentava-se estranhamente bem vestido: calça preta, camisa branca, gravata borboleta, sorriso. Atrás de si, garrafas multicoloridas exibiam cores de um arco-íris ébrio: azul, branco, vermelho e marrons de várias idades, envelhecidos em barris de carvalho.

- E então, o que é que vai ser? - Ele perguntou.

Na pequena mesa ao lado, uma mulher falava sozinha, com um cigarro queimado pela metade preso entre os dedos. À sua frente, um copo de gelo e provavelmente uísque, ainda que, agora, já fosse quase todo água. Dentre as palavras que murmurava, ouvia-se, perdidos, uns “eu sabia” e “aquele idiota”. O sofá onde sentava estava manchado, sujo como tudo o que os olhos alcançavam, e pequenos buracos feitos por pontas de cigarros brigavam, entre si, por atenção.

- E então, o que é que vai ser?

Banquetas enfileiravam-se em todo o contorno do balcão, e um homem de terno e gravata frouxa que parecia estar ali há muito tempo levantou a cabeça; do meio de um rosto oleoso e de um cabelo engordurado que lhe caía sobre a testa, sorriu com dentes amarelados e olhar ausente, deixando os olhos escondidos por trás de enormes óculos de tartaruga. Tossiu uma tosse engasgada e comprida pelo que pareceu uma hora, e tomou um gole de uma bebida impossível de identificar.

- E então, o que é que vai ser?

Um casal hispânico discutia em outra das mesas: ela, manhosa, de cara fechada, enquanto ele tentava alcançar seu rosto com as mãos, numa expressão de subserviência capaz de constranger um cão que esperasse por sobras à beirada da mesa. Logo ao lado, um homem olhava para um celular que, percebe agora, tocava incessantemente desde que entrara. Seu olhar é vago, distante, lacrimoso; seu fumar é sôfrego, queimando um cigarro quase inteiro em uma tragada só. Atrás dele, outra alma penada sai cambaleante do que provavelmente era o banheiro, tentando, desajeitada, fechar a braguilha.

- E então, o que é que vai ser?

Ele sentou em uma das banquetas e olhou com nojo para um pires de amendoins sebosos, que pareciam estar ali desde o início dos tempos.

- Vodca e club soda. –disse, por fim.

Todos os músculos em seu corpo pediam que fosse embora. Seu espírito o impelia para fora. Mas desde que chegara, a porta no outro extremo do bar, de madeira e metal, que tentava esconder-se dos olhares curiosos por detrás da fumaça e da embriaguês, chamava-o com força irresistível.

E ele tentava enganar-se, engolindo de uma vez o destilado, dizendo que iria embora sem procurar saber o que havia por detrás dela.

Mas permaneceu ali, olhar fixo, sacudindo as pernas.

...

Publicado por Renato Alt


Nenhum comentário: