21 de set de 2009

:: Adágio ::

Era uma terça-feira como qualquer terça-feira desde que o mundo é mundo, e nada anunciara sua chegada. Veio o sol, escondido por algumas nuvens cinzentas, pesadas, tornando a manhã fria e prateada. Ele caminhava pela larga rua de paralelepípedos, onde desembocava uma infinidade de pequenas e estreitas ruelas, como afluentes desembocam em um rio. Cedo demais, pouco movimento havia por ali: um padeiro organizava na vitrine a primeira fornada do dia, uma senhora puxava um carrinho de feira vazio rumo ao seu debate sobre o preço das verduras, um cachorro espreguiçava e abria a boca em um bocejo contagiante; aos poucos, a pequena cidade despertava, preguiçosa.

Não avisara que chegaria naquela manhã. Na verdade, sequer anunciou que iria, o que lhe deixava ao mesmo tempo ansioso e apreensivo: talvez já nem estivesse mais ali, talvez não o quisesse receber, talvez o tempo já tivesse levado consigo as idéias e possibilidades que ambos alimentaram.

Talvez fosse apenas covardia.

Mas se a porta se abrisse, e se ele entrasse naquela sala, poderia contar a respeito dos lugares onde esteve, poderia contar a respeito dos pores-do-sol que viu enquanto o Kailas recortava o horizonte, do chá de manteiga que o manteve aquecido em noites de frio indescritível, do trem que, não importa como, pegou um desvio errado e acabou levando-o a um destino tão remoto que mesmo a idéia de lá chegar por trem parecia inconcebível.

A sola dura dos seus sapatos fazia ecoar longe o som das passadas. Desconfortável como um intruso, parecia sentir todos os olhares voltando-se para si, ainda que invisíveis, ainda que protegidos por cortinas de seda e venezianas de madeira. Poderia jurar ouvir alguns soluços de espanto, de quem um dia o conheceu.

No final da rua, a casa pouco havia mudado: os três degraus de madeira que davam as boas-vindas à varanda continuavam ali, e nela estava, agora, uma grande cadeira de balanço que parecia ter sido colocada ali para nunca mais sair. Havia samambaias penduradas nos quatro cantos, e um pretensioso bebedouro para beija-flores que oferecia tragos aos passarinhos por oito saídas diferentes. Um espanta-espíritos avisava que o vento soprava suave e perfumado com os últimos suspiros das damas-da-noite e parecia anunciar, como um colega encorajador, que tudo ficaria bem.

Ele subiu os degraus e alcançou a porta de tela. Respirou fundo e vestiu um sorriso nervoso, enquanto pousava a mala surrada ao lado do pequeno tapete à frente da porta.

Bateu três vezes.

Não foi muito o tempo que esperou até que os passos lá dentro anunciassem a aproximação de alguém. Apressados, marcavam também, agora, o compasso do seu coração.

Abriu-se a porta.

Os olhos dela, que primeiro estavam em si mesma para ter a certeza de que estava apresentável, demoraram a subir e encontrar os dele. Mas encontraram. E a cor fugiu-lhe do rosto, a boca deixou-se abrir, faltou-lhe o chão.

Ele tirou o chapéu. Foram longos minutos em que estiveram em silêncio, olhando-se através da porta de tela.Então finalmente ela a abriu, e sem dizer palavra, afastou-se do caminho para que ele pudesse entrar

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Publicado por Renato Alt


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