28 de set de 2009

:: Sadachbia ::

Já não mantinha esperanças de voltar.
Mas, em seu íntimo, sabia que jamais o quisera.

Estudou, isolado do mundo, durante as manhãs de verão em que todos se esbaldavam nas praias ou nas piscinas. Deixou de lado tantas festas, dispensou umas tantas viagens, quebrou outros tantos corações enquanto mergulhava em livros, enquanto passeava por números e cálculos muito à frente de qualquer um que lhe estivesse sendo ensinado em sua escola.

Preocupou, claro, amigos, professores e pais: procuraram ajuda, quiseram saber se o filho tinha algum problema. Perguntavam, mas ele pouco dizia. Não se mostrava mal-humorado, ou impaciente; apenas como alguém que não estava ali, que tratava de assuntos e pensamentos que não encontravam eco em mais ninguém.

E colocava-se, todas as noites, através da clarabóia no sótão, a olhar as estrelas e a imaginar-se passando por entre elas, perdido no absoluto silêncio do escuro infinito, imperturbável, frio e acolhedor.

Já não encontrava mais as pessoas, já não tinha vontade de falar com elas. Tinha vontade de saber de física, e saber de matemática, e de jatos e propulsores.

Ele lembra de tudo, e relembra todo dia. Não com saudade. Não com remorso. Era simplesmente como era, e aprendera a aceitar isso há muito tempo.

Com um pequeno impulso, lançou-se à seção seguinte, a fim de conferir alguns dados para um relatório posterior. Tudo, como sempre, tranquilo. Tudo silencioso, como sempre sonhara.

Lembra agora do seu ingresso no programa, do quanto havia se preparado, do quanto disseram que ele jamais conseguiria. Sonho infantil, era o que diziam, o que sempre lhe fazia pensar porque é que não desencorajavam também os outros rapazes, que igualmente sonhavam sonhos infantis: de serem bombeiros e médicos.

O dele era ir mais alto. O dele era deixar tudo para trás.
Não por mágoa, não por remorso, não por nada de mau que lhe tivessem feito. Era apenas como era.

Hoje completava oito meses na estação. No seguinte, viria outra missão e o encontraria ali. Estariam juntos por duas semanas, enquanto estudavam os efeitos da ausência de gravidade sobre alguns elementos químicos, e lhe trariam suprimentos para os meses seguintes, quando novamente estaria sozinho consigo mesmo, olhando a Terra e sua beleza, enquanto mantinha em bom estado aquela estação que era de todos os países, mas que tinha apenas a ele como zelador, como mantenedor, como relator.

E enquanto deixava-se levar, esquecido que já estava do próprio peso, de um compartimento para outro da imensa estrutura, colocava-se a pensar em como estariam as coisas na cidade onde nasceu, onde havia a praia onde pouco fora, onde havia os amigos que conservara e sua família que, uma vez a cada tanto tempo, conseguia falar com ele através da internet.

E enquanto orbitava sozinho em seu mundo, sorria; porque sentia que estava onde sempre esteve desde que estudava, e ali estava sem rancor, melancolia ou saudade. Era apenas como era, e ele aprendera a aceitar isso há muito tempo.

...

Publicado por Renato Alt


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