14 de set de 2009

:: Selo ::

Estava inspirado naquela noite, e por isso resolveu escrever todas as cartas de uma só vez.

Abriu o pacote de papel e, mania que tinha, cheirou as folhas: era, para ele, perfume de possibilidades sem fim, de nascimentos, mortes, mundos, criaturas e nomes que, quem sabe, poderiam um dia fugir da tinta e alcançar as bocas das pessoas em uma conversa qualquer, em um comentário qualquer, ou quando estivessem para sugerir alguma leitura uma para a outra.

A sala estava escura, mas ainda assim preferiu apenas a luz do pequeno abajur de madeira que mantinha em cima da mesa. Planejara escrever à mão, mas reconsiderou por imaginar que o cansaço e, muito provavelmente, a emoção, acabariam por interferir em sua caligrafia, ainda que fosse ela responsável por muitos elogios espontâneos recebidos ao longo desses setenta e tantos anos.

Puxou a velha Remington para perto de si, quase ao mesmo tempo em que acendia a luz, e passou com carinho as mãos por sobre cada uma das teclas, como se quisesse acordá-las gentilmente, enquanto deixava escapar um suspiro pelo meio-sorriso que lhe alcançou os lábios.

Rodou a primeira folha pela máquina, ajeitou-se na cadeira, e escreveu as primeiras linhas, ressaltando o avançado da hora em que se dispôs a escrever e que tinha, no momento, a companhia de uma caneca fumegante de chá preto e do gato que, sem qualquer cerimônia, pulou sobre a mesa e aninhou-se sobre uma pequena toalha esquecida por ali.

Então, como a água que sai enfurecida por uma comporta aberta, as palavras começaram a jorrar pelos seus dedos; mesmo o chá esfriara, resignado com a falta de atenção, enquanto o estalar das teclas sobre o papel rompia um silêncio tão denso que quase poderia ser tocado com as mãos.

Assim foi toda a madrugada, até os primeiros raios de sol entrarem, sem pedir licença, pelas frestas que as cortinas, distraídas, deixaram de cobrir.

Agora, ele já tinha terminado.

Endereçou e datou todos os envelopes, porque realmente gostaria que os abrissem somente nas datas indicadas, o que levou-o a deixar mais um bilhete sobre a caixa onde os acomodara, reforçando esse desejo.

Colocou tudo sobre a mesa da sala, onde seria visto por qualquer um que entrasse.

Assim, subiu de volta ao quarto e foi terminar de fazer a mala.

...

Publicado por Renato Alt



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