7 de set de 2009

:: Zênite ::

Tinha a mochila nas costas, onde carregava, entre outras coisas, lanterna, água e um outro agasalho, porque poderia esfriar, além de algumas barras de cereal e de uma luneta que, assustada, nem sequer lembrava da última vez em que estivera fora do baú.

Começou a subir no início da madrugada, por aquela trilha ancestral, cercado por pirilampos e por uma suave miríade de sons: era momento daqueles para estar só, e enquanto caminhava consigo e com seus pensamentos, deixava cada vez mais longe a cidade adormecida, perdida em sua infinidade de luzes, de cores e de lamentos inaudíveis, fazendo dela quase o reflexo de um céu estrelado que estendia-se pelo horizonte.

Já ia alto, como a noite, avançando a passos largos, estalando pequenos galhos sob os pés e sentindo as folhas das árvores no caminho acariciarem-lhe o rosto com o delicado frescor do orvalho e com o perfume da terra molhada que há tanto tempo não lhe tomava o olfato, não lhe tirava dos pulmões a poeira e o gás carbônico que os dias citadinos lhe impunham a cada nova manhã.

Passo a passo, distanciava-se de si.

E passado um tempo que sequer mediu, alcançou a grande clareira e a companhia de multidões de grilos que o saudavam. Viu as pedras e os troncos caídos, cobertos de musgo e de fungos, banhados pela luz azulada de uma lua que parecia tentar ocupar todo o céu.

Estendeu sobre a grama uma imensa canga, que pegara emprestado da namorada, e deitou-se usando a mochila como travesseiro.

Foi quando, como se num espetáculo montado apenas para si, começaram a passear diante dos seus olhos todas as estrelas e constelações, e ele já não se preocupava se o que via estava mesmo ali ou se era truque da imaginação. Viajou para a lua e mais além, visitou Alpha Centauri e o esplendor de Arcturus, testemunhou guerras centenárias e vislumbrou naves que viajavam em velocidades inconcebíveis. Conheceu povos e histórias, tempos e lendas, experimentou para mais do que qualquer palavra conhecida poderia expressar; e reencontrou a cumplicidade por si mesmo há tanto perdida, enquanto umedeciam seus cabelos, roupas e rosto, enquanto o ar noturno tocava-lhe os dentes, que se expunham, despudorados, em um sorriso aberto e preguiçoso.

Já não sabia mais das horas, do tempo, de si.

Até que, suavemente, o calor dos primeiros raios de sol o avisaram que havia adormecido, e que chegado o dia, era hora de voltar.

...

Publicado por Renato Alt



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