26 de out de 2009

:: Circadiano ::

Diga-me então você, afinal, o que é que ainda resta a ser dito, que já não tenha sido esmiuçado, eviscerado e exposto a mais olhos do que os que deveriam nos conhecer. Diga-me qual é o gesto que falta, porque estas mãos já não conhecem mais caminhos a percorrer, nem conhecem estas pernas outros lugares para onde levá-la. Diga qual é o sonho que ainda não sonhamos, os desejos que ainda não manifestamos e o que você quer que um dia sejamos que ainda não tenhamos sido ou, ao menos, simulado.

Diga-me qual é o futuro que espera, porque o que espero, agora, já não sei.

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Publicado por Renato Alt

19 de out de 2009

:: Gnosis ::

Sei que os remédios farão efeito, também vai ter a terapia e tal...

Eu tenho ocupado a cabeça sim, mas acontece que isso me abate muito, é o que eu falei, preciso me agarrar às pessoas que gostam de mim, em todas elas, por que estou naquela corda e não sei se caio ou se ando, porque ainda não tenho meu equilíbrio. Procuro um halo em algum lugar, mas nem ao menos sei por onde começar, então o caminho permanece escuro demais, por tempo demais, e me sinto andando por um corredor com os braços abertos, tentando tocar as paredes e sentir que não estou perdido nesse vácuo sem cheiro, sem cor, sem chão.

Há dias melhores, sim, e neles tudo parece ganhar novas cores, ou ao menos mostrar as que sempre estão lá mas que se recusam a deixar-me vê-las. Nesses dias me engano, e sei que me engano, porque digo a mim mesmo que a partir de agora minha atitude diante da vida vai ser outra, já que ela novamente me parece cheia de oportunidades e de pessoas a conhecer, já que aqueles que encontro na rua me passam a impressão de sorrir ao me ver e não mais de cochichar pelos cantos depois que passei. E, nesses dias, de tão bem que me sinto, penso já não precisar de ajuda ou mesmo dos tais remédios, chego a me sentir tolo por em algum momento ter julgado precisar recorrer a eles. Simplesmente me deixo planar pelos dias, flutuar, como fazem os pássaros ao encontrar uma térmica, e tudo parece pequeno, positivamente pequeno, uma vez que o horizonte ganha mais espaço, mais claridade e mais ar, e a sensação de leveza e felicidade é tanta que se torna quase insuportável.

Mas então vêm os dias maus, e passo a odiar os dias bons, passo a culpá-los por sentir-me assim novamente (ainda que saiba que a culpa não é de ninguém mais que não minha), e me deixo cair na cama e chorar e dormir, em uma completa e absoluta certeza da nulidade da minha existência, plenamente consciente da minha completa e irrevogável ansiedade por não ter que ser; e já não quero música, ou telefonemas, ou amigos ou comida ou banho ou o que quer que seja. Fico com os olhos abertos em frente à TV, mas se alguém telefonasse (se eu não deixasse o telefone fora do gancho) e me perguntasse o que estava assistindo, nem ao menos saberia responder. Nessas horas me vêm pensamentos que não quero ter, sobre coisas que não quero fazer, mas que ao mesmo tempo parecem tão confortáveis, tão serenas, tão detentoras de um alívio total e definitivo que não sentir-me atraído por elas é inevitável.

Então antes que tomem conta de mim, bebo vinho e adormeço novamente, e fujo durante algumas horas. Não sonho. Sei que dizem que todos sonham e apenas não lembram, mas tenho convicção de que sou a exceção à regra, de que sou eu quem garante que todos os outros sonham, justamente por confirmá-la. Acordo suado, sobressaltado, e apesar de não sair do quarto há dias, levo eternos segundos para situar-me novamente, para entender onde estou. E enfim entendo, e lembro dos porquês.

Mas então, do nada, sem motivo, vêm os dias bons.
Os odiosos dias bons.

Entende?

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Publicado por Renato Alt


12 de out de 2009

:: Ludus ::

E ele tinha sua própria floresta, o jardim atrás da casa. Nela habitavam criaturas fantásticas, suas amigas, e, ali, quanta coisa aconteceu! Houve dragões que aterrorizavam vilas inteiras, mas havia ele, o guerreiro destemido, que como Beowulf enfrentava qualquer aberração com sua espada em riste e, se preciso fosse, com as próprias mãos. Era rei, soberano, servo.

Havia os dias de chuva, e neles, aproveitando a água que escoava apressada junto ao meio-fio, embarcava em aventuras épicas a bordo de um navio pirata subitamente arrastado pela correnteza, ou por uma tempestade, ou por monstros marinhos que tentavam leva à pique a embarcação, mas que eram, sempre, derrotados pelos incansáveis canhões e pela coragem dos lobos do mar.

E, à noite, no céu estrelado cuidadosamente composto por uma infinidade de adesivos fosforescentes, viajava pelos planetas e mais além, conversando com seres tão diferentes, porém tão parecidos, e com eles conhecia lugares distantes que nenhum astrônomo seria capaz de conceber.

Ao seu lado, sempre, o amigo que apenas ele via: não tinha nome, ou tinha vários, assim como várias eram as formas que assumia, e ambos perderam a conta de quantas vezes salvaram um a vida do outro.

E assim foi durante alguns anos, que passaram mais rápido do que mesmo sua tão fértil imaginação conseguia compreender. Sim, ele era sempre avisado de que isso aconteceria. Mas, como em tudo, o futuro parecia tão distante e inalcançável quanto os planetas que visitara em seu quarto na madrugada anterior.

Hoje, já não há mais o céu adesivado, mas ainda hã estrelas. Já não há mais a simplicidade que, com tanta facilidade, torna as coisas reais por sua simples vontade. Mas ainda há a imaginação para conceber mundos, e vidas, e histórias.

E se prestar atenção, seu velho amigo invisível ainda lhe sopra algumas aventuras no ouvido, e, juntos, eles tentam contá-las a todos que as quiserem ouvir.

Feliz Dia das Crianças.

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Publicado por Renato Alt


5 de out de 2009

:: Ostinato ::

Saiu de casa porque tinha que sair: não conseguia imaginar-se por mais um minuto sequer em frente àquela TV, vendo as mesmas reprises de Furyo ou de qualquer comédia rasgada dos anos 80. Já passara por todos canais, passara pelos leilões de jóias e pelas notícias da Câmara; tentara navegar pela internet e encontrar algo que lhe roubasse, ainda que brevemente, os pensamentos que vinham aos borbotões, como água de uma barreira rompida. Não havia ninguém online, e mesmo que houvesse, já não queria que o soubessem em casa. Foi quando teve, em meio à taquicardia e ao suor, a certeza de que estava perdendo a própria vida a cada segundo, e a certeza de que estavam todos, como ele, em seus quartos, escondidos, rezando para que pensassem que estavam se divertindo em alguma balada noite adentro, e beijando desconhecidos e bebendo drinks multicoloridos em boates estrambóticas, ensurdecedoras.

Vestiu sua melhor camisa, e ela, apavorada por sair do armário, espalhou pelo ar o inconfundível cheiro amadeirado e poeirento de coisa guardada, esquecida.

Caminhou pelo corredor deserto rumo ao elevador que, cúmplice, já o esperava. Desceu até a portaria, passou pelo vigia noturno, que adormecera em frente ao monitor do circuito interno do condomínio, e arremeteu à madrugada.

A rua silenciosa, fria e convidativa, mostrava suas luzes de neon e seus carros apressados: em algum lugar, música eletrônica, chegando abafada aos ouvidos; saindo dos bueiros, uma fumaça densa e branca envolvia o asfalto, que ainda brilhava por causa da chuva que caíra havia pouco.

De passo em passo, caminhou decidido, sem saber para onde ia, andando o mais rápido que conseguia, tentando afastar-se de si.

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Publicado por Renato Alt