12 de out de 2009

:: Ludus ::

E ele tinha sua própria floresta, o jardim atrás da casa. Nela habitavam criaturas fantásticas, suas amigas, e, ali, quanta coisa aconteceu! Houve dragões que aterrorizavam vilas inteiras, mas havia ele, o guerreiro destemido, que como Beowulf enfrentava qualquer aberração com sua espada em riste e, se preciso fosse, com as próprias mãos. Era rei, soberano, servo.

Havia os dias de chuva, e neles, aproveitando a água que escoava apressada junto ao meio-fio, embarcava em aventuras épicas a bordo de um navio pirata subitamente arrastado pela correnteza, ou por uma tempestade, ou por monstros marinhos que tentavam leva à pique a embarcação, mas que eram, sempre, derrotados pelos incansáveis canhões e pela coragem dos lobos do mar.

E, à noite, no céu estrelado cuidadosamente composto por uma infinidade de adesivos fosforescentes, viajava pelos planetas e mais além, conversando com seres tão diferentes, porém tão parecidos, e com eles conhecia lugares distantes que nenhum astrônomo seria capaz de conceber.

Ao seu lado, sempre, o amigo que apenas ele via: não tinha nome, ou tinha vários, assim como várias eram as formas que assumia, e ambos perderam a conta de quantas vezes salvaram um a vida do outro.

E assim foi durante alguns anos, que passaram mais rápido do que mesmo sua tão fértil imaginação conseguia compreender. Sim, ele era sempre avisado de que isso aconteceria. Mas, como em tudo, o futuro parecia tão distante e inalcançável quanto os planetas que visitara em seu quarto na madrugada anterior.

Hoje, já não há mais o céu adesivado, mas ainda hã estrelas. Já não há mais a simplicidade que, com tanta facilidade, torna as coisas reais por sua simples vontade. Mas ainda há a imaginação para conceber mundos, e vidas, e histórias.

E se prestar atenção, seu velho amigo invisível ainda lhe sopra algumas aventuras no ouvido, e, juntos, eles tentam contá-las a todos que as quiserem ouvir.

Feliz Dia das Crianças.

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Publicado por Renato Alt


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