5 de out de 2009

:: Ostinato ::

Saiu de casa porque tinha que sair: não conseguia imaginar-se por mais um minuto sequer em frente àquela TV, vendo as mesmas reprises de Furyo ou de qualquer comédia rasgada dos anos 80. Já passara por todos canais, passara pelos leilões de jóias e pelas notícias da Câmara; tentara navegar pela internet e encontrar algo que lhe roubasse, ainda que brevemente, os pensamentos que vinham aos borbotões, como água de uma barreira rompida. Não havia ninguém online, e mesmo que houvesse, já não queria que o soubessem em casa. Foi quando teve, em meio à taquicardia e ao suor, a certeza de que estava perdendo a própria vida a cada segundo, e a certeza de que estavam todos, como ele, em seus quartos, escondidos, rezando para que pensassem que estavam se divertindo em alguma balada noite adentro, e beijando desconhecidos e bebendo drinks multicoloridos em boates estrambóticas, ensurdecedoras.

Vestiu sua melhor camisa, e ela, apavorada por sair do armário, espalhou pelo ar o inconfundível cheiro amadeirado e poeirento de coisa guardada, esquecida.

Caminhou pelo corredor deserto rumo ao elevador que, cúmplice, já o esperava. Desceu até a portaria, passou pelo vigia noturno, que adormecera em frente ao monitor do circuito interno do condomínio, e arremeteu à madrugada.

A rua silenciosa, fria e convidativa, mostrava suas luzes de neon e seus carros apressados: em algum lugar, música eletrônica, chegando abafada aos ouvidos; saindo dos bueiros, uma fumaça densa e branca envolvia o asfalto, que ainda brilhava por causa da chuva que caíra havia pouco.

De passo em passo, caminhou decidido, sem saber para onde ia, andando o mais rápido que conseguia, tentando afastar-se de si.

...

Publicado por Renato Alt


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