30 de nov de 2009

:: Abendmusik ::

Calor. Sim, calor suave, vindo do canto esquerdo, onde ficava o fogão. Não era o calor da chama de nenhuma das seis bocas, que sopravam fogo como dragões debaixo das panelas que, em resposta, colocavam em ebulição tudo aquilo que tinham no ventre, inundando o ar com o cheiro de azeite, de manjericão, de tomates recém-colhidos, de creme de leite, e de ovos e de farinha. Não era delas o calor que percebia acariciando-lhe as pernas e a face; era o calor constante e conformado do forno, que há horas assumira a missão de dourar o leitão que lhe foi entregue, e para provar-se digno de tal responsabilidade, exibia orgulhoso uma miríade de odores cada vez que alguém abria sua porta para regar um pouco mais a carne suculenta.

Sentia o calor, também, nas mãos, enquanto envolvia sua xícara predileta, que reconhecia por sua textura tão particular. Era apenas uma mania, talvez, ou talvez fosse o fato de já ter aquela peça ofertado-lhe companhia em tantas noites insones, por ter sido sua confidente, por ter embalado seu sono nas noites solitárias e aquecido seu ânimo nos dias de inverno, quando a neve alcançava a metade da altura da porta. Bebera chá: erva-cidreira, bom para qualquer momento do dia.

Ouviu alguém colocar, apressadamente, uma garrafa à sua frente; ouviu colocarem um saca-rolhas, e sorriu: sabiam que gostava de abrir o vinho, e nunca negavam-lhe esse prazer. Sabia que quem o fizera desta vez fora a filha mais velha: a reconhecia pelo jeito nervoso de andar, sempre apressado, como se toda tarefa fosse urgente e inadiável.

Sim, havia muito movimento na casa naquele dia.

Enquanto torcia o aço rolha adentro, ouvia crianças rindo do lado de fora, e ouvia seu cão, que teria a mesma idade que ele (nunca lembrava se eram nove ou sete anos pra um, mas suspeitava serem sete mesmo), brincando como um filhote debaixo do sol. Ouvia a mangueira oferecer água aos borbotões, e sabia - assim como seus netos - que o cachorro adorava tentar morder o jato forte que invadia o ar.

Foi quando o aroma do vinho tomou seu olfato. Carvalho. Frutos secos. Uma nota floral difícil de identificar, fugidia. Percebeu quando puseram a taça diante de si, e serviu-se: adorava o som do vinho deixando a garrafa, e era para ele um ritual quase sagrado deixar a nobre bebida ganhar vida, conhecer o mundo, acomodar-se no cristal que esperava-o ansioso.

Sorveu, suspirou; muitos odores inebriantes para uma manhã só.

Alguém tocou seu ombro, e ele entendeu que o almoço estava pronto, e que seria servido na imensa mesa de madeira que ele mesmo construíra em idos tempos, que parecia poder acomodar toda a raça humana se preciso fosse.

Rosa. Talvez fosse rosa a nota no vinho.

Sentiu que seu velho companheiro sentara ao seu lado, encharcado, cansado, ofegante e feliz. Sentiu o frio da água quando passou os dedos pela cabeça dele, e logo em seguida, a língua lisa e carinhosa a lamber-lhe a mão.

E então, ao perceber o silêncio de todos, fez uma prece.
Em seguida, alguém colocou Rachmaninoff.

Mas havia mais risos do que notas no piano, e mais horas do que a pressa, aflita, tentava apontar ao longe.

...

Publicado por Renato Alt

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