2 de nov de 2009

:: Enclave ::

"Certo, então vou dizer.

Para começar, já que não preciso mais medir palavras, vou dizer que não suporto a maioria desses que chamamos de parentes. E digo a maioria com alguma concessão, não querendo ser injusto, ainda que nenhum nome me ocorra agora para justificar tal anuência. Não suporto não porque os queira mal, afinal uma coisa nada tem a ver com a outra, e por ser tão cansativa a simples idéia de ter que explicar o que quero dizer, peço, por favor, que pense um pouco antes de perguntar. Não os quero mal, mas o bem que quero é o mesmo que quero a todas as pessoas de bem: saúde, prosperidade, honestidade, e que vivam seus dias em completa paz, criando a si mesmo e aos seus da mesma forma; mas entenda que não mantenho relação afetiva alguma com essas pessoas, e que o fato de carregarem o mesmo sobrenome que eu – ou eu o delas, tendo vindo depois – é mera casualidade, um joguete do destino. Não duvido que tenham por mim algum apreço, mas não creio que, em sua completa lucidez e honestidade, essas mesmas pessoas possam chamá-lo amor, ainda que assim o afirmem aos quatro ventos e à quantas pessoas mais lhe cruzam o caminho.

Se me pede que justifique o que digo, se é que é caso para tal, mostro-lhe o que, afinal, sempre esteve em frente aos seus olhos: os almoços dominicais com assuntos triviais, aqueles que continuam a tratar-me como se eu tivesse oito ou dez anos de idade, as piadas das quais não ri nem mesmo na primeira vez em que foram contadas e que continuam sendo repetidas à exaustão; a falsa cumplicidade nas conversas sobre os supostos negócios da família (nos quais, por convicções pessoais, nunca quis tomar parte) e as promessas mentirosas de visitas no final de semana seguinte ou quem sabe no próximo. Olhares que não encontram os meus há anos e que, supõe você,deveriam manter um laço inviolável,incorruptível, mas que são tão vazios quanto aqueles das pessoas que encontro em um momento qualquer do dia, no caminho entre aqui e ali.

Peço que não leve a mal este desabafo, mas apenas que compreenda que cumplicidade, laços, empatia, são coisas que partem de um princípio, partem de interesses em comum, e que a partir daí se formam. Não é coisa que se possa forçar, que se conquiste pela insistência: tal vai apenas gerar constrangimento, aborrecimento e, por que não, frustração. Pertencermos à mesma família não significa termos interesses comuns, não nesses dias em que crescemos uns aqui e outros lá, telefonando quando é conveniente, mas por nenhum outro motivo que não esse. Por favor, entenda que me aborrece a condescendência, que me irrita ver que usamos de dois pesos e duas medidas para julgar os nossos – como você nos chama, ainda que não o admita – e os outros; condescendência essa que não é diferente daquela que leva nosso país à ruína, que admite exceções morais, que considera-se acima do julgamento de quaisquer outros.

Gostaria que respeitasse quando digo que prefiro estar na companhia daqueles que conheci ao longo do caminho, que não são melhores do que ninguém, mas são aqueles que fizeram escolhas parecidas com as minhas, que buscam valores parecidos com os meus e, mais ainda, por caminhos que eu, se não percorri, poderia percorrer sem o medo de perder minha identidade, sem a sensação de estar violando qualquer nuance da essência que faz de mim quem sou e que, confesso, estou ainda procurando.

Não falo por bem, não falo por mal. Falo apenas por ser com é.

E espero que, ainda que o que digo encontre alguma resistência em seus olhos, você tenha a lucidez de perceber que não há amargura alguma em minhas palavras: apenas a pura e mais honesta das verdades: a mesma que, como um paladino, você afirma reclamar.

Abraços."

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Publicado por Renato Alt



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