23 de nov de 2009

:: Joie de Vivre ::

Já olhava por cinco minutos ou mais, como se toda a realidade lhe tivesse alcançado em uma fração de segundo, em um instante único e eterno, que lhe congelara as articulações, que lhe roubara o fôlego e o viço dos olhos, que fizera subir por suas costas um arrepio maldoso, cruel, que lhe tirara o chão e arrepiara os pêlos dos braços e do pescoço.

Segurava o cabelo com a mão direita, e era comprido, mas ele não sabia desde quando. Lembrava de mandar que o raspassem quase todo, deixando maior em cima, para que “crescesse de maneira uniforme”, como lhe dizia, à exaustão, seu cabeleireiro de longa data, sempre que com ele se encontrava.

Soltou a mecha, passou a mão pela barba por fazer, de onde despontavam alguns fios brancos, inoportunos, indesejados: colocavam-se nas primeiras fileiras, exibidos, deixando para trás de si aqueles mais jovens, embebidos em melanina.

Olha fundo dentro dos olhos, procura neles alguma resposta; e nota, então, as marcas que estão ao redor deles, a pele repuxada, ressecada, os vincos na testa, a linha de cabelo que recuara sem pedir-lhe permissão; e, sim, há também ali os fios brancos, roubando a uniformidade do negro que constituía o elogio mais antigo ao qual se acostumara.

Afasta-se, ofegante, dois ou três passos, e vê os pelos em seu peito, e vê a pele já levemente descaída. Sente o frio do azulejo sob os pés e apóia as mãos nos joelhos, apertando os olhos, sentindo que, talvez, viesse a desmaiar.

Mas não desmaiou.

E, inquieto, percebeu sua mente invadida por milhões de perguntas, que nem sequer tiveram a decência para esperar pela resposta que exigiam, dando lugar a outras tantas. E ele tenta imaginar para onde foram os anos, pergunta-se o que foi feito da sua adolescência e juventude, pergunta quem roubara os sonhos que sonhara desde sempre, quem roubara a vida que deveria ter, e em que momento algo aconteceu para colocá-lo em outra direção, levando-o até onde está.

Quisera desmaiar. Suava. Sentia os dedos e lábios dormentes. Sentia fracas as pernas, suportando seu peso e seu tempo.

Retomou o fôlego, lavou o rosto. Era noite, das frias, e talvez uma caminhada o deixasse melhor.

Saiu, então, e colocou-se a andar, tentando, tanto quanto podia, esquecer-se pelo caminho.


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Publicado por Renato Alt

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