9 de nov de 2009

:: Mandrágora ::

Acordou com o coração acelerado, peito apertado, encharcado em suor, enquanto o relógio marcava alguma hora perdida da madrugada e a tv exibia, para ninguém, "Depois de Horas".

Sentou-se na cama e, de repente, sentiu-se invadido por todos os sons da cidade: alguém andando no quarto acima, um ônibus ou caminhão passando em alta velocidade pela avenida, o ruído das luzes de neon que, juntas à sua janela, anunciavam quartos vagos para aqueles que estivessem vagando por ali.

Apoiou a cabeça nas mãos, passou-as pelos cabelos; sentia escorrer pelos braços e costas o suor tenso e pegajoso, sentia subir-lhe pela nuca o arrepio da ansiedade. Seus olhos queimavam como brasas vivas enquanto avistava a tempestade que se anunciava, distante.

Dor no estômago. Contraiu-se. Agarrou com mãos trêmulas o antiácido leitoso que estava sobre o criado-mudo e bebeu-o com sofreguidão, como se fosse água.

Ar. Precisava de ar. Tentou fechar os olhos e controlar a respiração, tentou imaginar-se em algum lugar verde, com vento soprando, com pequenas pétalas de flores desprendendo-se e flutuando dia adentro.

Mas o coração não se aquietava. O dia viria. Ainda que lutasse, que não o quisesse, o dia viria.

Então, antes dele, vestiu as calças e a velha camisa, enfiou os pés nos sapatos e saiu, descendo as escadas e entregando-se aos suspiros da noite que, teimosa, parecia não ter fim.

•••

Publicado por Renato Alt


Nenhum comentário: