15 de nov de 2009

:: Serenada ::

A manhã chegara junto com ela, estendendo sua luz amarelo-avermelhada pela infinita rua de paralelepípedos, projetando uma sombra tão grande que, quem olhasse, jamais poderia dizer que pertencia a um corpo tão pequeno.

Ela caminhava em passos decididos e tranquilos. Vigiava com o olhar cada metro à sua frente: usava pequenos saltos, e não queria arriscar vê-los presos em uma fresta. Mais do que medo de um tombo, temia estragar o calçado, presente de sua mãe, que a acompanhava para todos os lados. Trazia na mão uma pequena mala quadrada e dura, cheia dos dias que passou longe, cheia de chuvas e trovoadas, cheia de lugares distantes e impensáveis, cheia amores e dissabores.

Em frente, o casarão com sua torre solitária, anacrônica, agredia a paisagem ao mesmo tempo em que a tornava única, inigualável. Foi ela a responsável por tantas aventuras de infância, foi ela o argumento de tantas mães para convocar os filhos de volta para casa, foi - e ainda o é - a silenciosa guardiã de mistérios que confundem-se entre fantasia e ficção.

A chuva da véspera deixara o chão escorregadio e os cachorros preguiçosos. Olhavam-na enquanto caminhava e não pareciam dispostos nem mesmo a latir, limitando-se a levantar a cabeça e em seguida pousá-la de novo, de volta ao sono. Enquanto caminhava, sentia vir na suave e gélida brisa o cheiro de terra molhada, do mato, e ouvia ao longe o canto de algum pássaro que, estranhamente, não reconhecia. Revia muros e cercas, revia cores que em nenhum outro lugar encontrara.

Parou por um momento e deixou invadir os pulmões todo o frescor da aurora, como se puxasse em suas narinas a própria luz da manhã.

Estava de volta. Enfim, de volta.
E era hora de recomeçar.

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Publicado por Renato Alt


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